sábado, 13 de dezembro de 2008

Adeus velho mundo


- Bem, preciso ir. O tempo é curto.
- Pois então isso é um adeus? - perguntou seu José olhando para os olhos da filha
- Acho que sim, talvez um adeus, papai... -
- Esse velho tem direito a um último abraço pelo menos?
- Mas é claro que sim... - falava uma Júlia de voz tremendamente embargada.
E repetinamente aquele momento lhes pareceu tão forte que cada músculo deles clamava por ficar ali abraçados para sempre. O silêncio incorruptivel fazia como se todo o amor do mundo tivesse sido guardado para ser entregue naquele abraço.
Quando finalmente abriram os olhos, ainda estavam entre os braços um do outro. Júlia pôde ver por entre as janelas a bela tarde outonal no quintal de sua casa. Tantas vezes havia desenhado por entre aquelas árvores. E agora? Por quais outros jardins levaria seus cadernos para expressar sua arte? Um outono estava se findando e entre o embaralhar de folhas secas, o seu coração embaralhava-se as dúvidas de outrora. Tinha vontade de poder transpor em arte todos esses sentimentos. A ordem dentro de si havia ido embora junto com as folhas secas que atravessaram as ruas outonais. O friozinho no nariz queria fazê-la ficar recontida em sua própria casca, mas algo a mandava sair e algo ao mesmo tempo a mandava ficar.
Quando se deu conta que estava olhando para o nada, entregou ao pai o seu mais recente desenho: um senhorzinho sentado numa cadeira de balanço. Era uma caricatura de José. Estava sorrindo, os seus olhos profundos estavam bem representados. As lágrimas denunciavam seus medos. Embaixo, havia algo escrito:
" Basta o senhor pedir que ficarei "
O velho pai chorou avidamente. Debulhou-se como criança perante a decisão a ser tomada.Era a magia do outono que se concretizava abrindo as suas comportas. Outono, um tempo para repensar as cores da sua vida, as cores da arte que sua filha tanto amava. No fundo, o velho pai sabia o quão dificil seria vê-la ir. Por um lado, era visivel que sua filha estava apaixonada pela arte dos desenhos. Mas por outro lado queria protegê-la até o último minuto das incertezas da vida real. O medo quase se apoderou completamente de José, mas por fim ele disse:
- Nada a deterá, filha. Nem mesmo eu... - reuniu forças para não chorar.
- Oh, pai...
- Você precisa ir. Você precisa ir, agora!
- Mas pai...
- Me prometa que não terá medo...
- Eu..eu prometo. Não hesitarei!
- Siga o coração, minha pequenina. Escute essa sua emoção, seja lá pra onde você for.
Aquelas foram as últimas palavras que ele dirigiu para Júlia. Ela desceu as escadas, ainda em meio a soluços audiveis e seguiu...
Pouco a pouco, por entre as cortinas, era possivel ver uma nova Júlia indo embora, olhando com olhos quentes, firmes, ela acenava enquanto seu pai se lembrava da criança que ela um dia fôra. Olhos grandiosos, cabelos leves como o vento, hoje, aquela mesma menininha destemida da infância que amava rabiscos e desenhos e que era incapaz de se entregar a primeira queda de bicicleta ou no primeiro traço mal delineado aparecera novamente, mas agora o estava deixando pra trás para sempre. Aquela era uma nova Júlia, a artista incapaz de acatar qualquer resquisito de razão. Caminhando em direção ao novo mundo, abandonando qualquer medo e abraçando definitivamente toda a aventura que estava por vir de sua arte... Antes de tudo, aventureiros, como a pequena Júlia, são sonhadores que vivem de sonhar com a razão do seu viver...Incapazes de distinguir distância alguma de alguma distância, encontram acalento apenas na certeza de não ter um pingo de receio de se lançar perante as possibilidades da vida. A pequena Júlia se apaixonara pelo mundo artistico e a compreensão disso dispensa palavras. Talvez as rimas fossem pequenas para dizer ou quem sabe os contornos fossem insuficientes para representar...Para apaixonados o que importa é que a urgência bate a porta e o mistério da paixão pousa no ar. Afinal, paixão é paixão, é um trovão, é fogo, é doçura ou, quem sabe, apenas uma sensação.

domingo, 23 de novembro de 2008


26 de julho de 2006

A beira da praia, repousavam três amigos aquecidos por uma fogueira improvisada. Ted, Alice e Roberto brindavam o futuro sob a luz das estrelas e ao ruído gostoso da brisa do mar soprando fininho nos ouvidos... Risos e gargalhadas permearam aquele que foi o melhor fim de semana de suas vidas. Cheio de muita alegria e brilho do sol refletido no mar e no olhar. Um lugar deserto, uma mesinha montável e a certeza de que quanto menor e mais apertada se mostrava a barraquinha onde estavam hospedados maior e mais perfeito ficava aquele lugar.
Sem televisão, rádio ou qualquer aparelho que os antenasse com o mundo lá fora, eram só Ted, Alice e Roberto.
Agora, a noite caía aos poucos. Trazia consigo o aconchego e a certeza de que no escuro todos eram iguais. Assim, os segredos vinham a tona. Não era preciso entorpecentes ou bebidas para que a verdade se revelasse naquela mesa. Ela simplesmente aparecia e resplandecia entre olhares firmes e atentos a tudo. A verdade se revelava em forma de lágrimas, sorrisos aflitos e sobretudo um reconforto, fazendo renascer a esperança dentro de cada um na certeza de confiar em alguém nesse mundo imenso.
Depois de tantas revelações, Ted resolve quebrar o silêncio:
- E então? O que vai ser daqui pra frente? Amanhã voltaremos pra casa...
- Amanhã, eu vou...ah, sei lá, o que eu vou fazer amanhã...
- Eu não sei também. Acho que vou fazer meu cabelo...
Aos pouquinhos, os velhos hábitos voltavam. Aos poucos a sintonia ia embora... O prazer momentâneo de estar com os amigos estava sendo tragado pela lembrança dos compromissos que cercavam a vida de todos. Aos poucos, as estrelas seriam as únicas testemunhas do que acontecera ali. Estavam sós, eternamente sós e presos á realidade de que tudo é finito. Sobretudo, as velhas amizades.Em breve, seria como nada daquilo tivesse acontecido. Triste, não?
E mesmo que cada um tenha revelado um pouco de si ao outro, as verdades íntimas que jorraram naqueles três dias não serviriam de elo entre eles por conta da corrosão causada pelo desleixo deles com eles mesmos. Ah, como seria se os amigos soubessem que a vida impõe o término de tudo? Viveriamos mais as amizades? A lua já se apresentava imponente, era chegada a noite e ao fim dela os segredos que deveriam ser o ponto de contato eterno entre os jovens não mais seriam que meras confissões de adolescentes num fim de semana qualquer...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


Procuro por corações que tragam o acalento e não tenham medo de se aventurar. Portador de ouvidos sedentes de belas vozes, procuro por algo que soe como música clássica para os meus ouvidos calejados com discursos fajutos e melodias incertas. Envio esse anúncio a procura de uma companhia diferente e inovadora. Não há restrições quando á idade, cor, raça ou credo. Não exigo experiência. Procuro alguém curioso que desvende os segredos que são para mim mistérios guardados a sete chaves. Procuro verdades e questionamentos inteligentes. Necessito de alguém para limpar as feridas e machucados que nem sei quem fez ou onde encontram-se. Não prometo buquês de mil flores ou caixas de chocolate. Salário? Não posso pagar. Serei apenas um olhar de alguém profundamente disposto a mergulhar em outro olhar. A vaga está aberta para alguém que traga luz durante as manhãs e que deixe saudades toda vez que sair. Porém o requisito básico para contratações é que cada vez que me abraçar deve sair levando para longe um pouco das minhas muitas fraquezas.

Quando chegar, não precisa bater, a porta a muito já está entreaberta.

domingo, 9 de novembro de 2008


Helena,

Faz muito tempo que não escrevo uma carta. E esta é a primeira vez que venho para dizer adeus por correspondência. Infelizmente, é momento de abrir os olhos para velhas promessas e ver que o futuro prometido já não mais se encaixa mais em nossa história. Para começar quero pedir perdão por conta das falsas esperanças. Me perdoe se quebrei a promessa de nunca mudar o meu jeito de ser por força das circunstâncias. Saiba que eu tentei, meu amor, tentei de verdade fazer com que nosso amor estivesse para sempre intacto. Acreditei nisso quando cartas suas passam por debaixo da porta, interrompendo a noite fria, era como se uma flor murcha desabrochasse esperanças. E ao lado do rádinho de pilha que eu você me deu no natal de 99, eu mergulhei profundamento nas suas palavras carinhosas ao som das velhas músicas que ouviamos juntos, você se lembrará disso.
Eu sei que cada dia a partir daqui pode ser um novo inferno em nossas vidas, por isso clamo a Deus para nos ajudar, você sabe do que o toque dele é capaz. Mesmo distante, anelo que Ele agarre as suas mãos nas horas de dificuldades.
Não sei pra onde vou, não sei se voltarei, por isso quero que imagine um jardim fabuloso, cheio das suas tão queridas jasmins. Estaremos lá, eu e você, eternizados pelo amor e pela paixão fervorosa que vivemos durante esse tempo. O destino já me provou que o grande problema desse mundo é que estamos pensando que giramos sobre ele, mas é o mundo que gira sob nossos pés, não há como controlar suas determinações. Porém, ainda é possivel sonhar mais uma vez. Sonhe comigo, sonharei contigo. Desculpe se não fui claro o suficiente nesta carta, é que as palavras as vezes somem quando queremos dizer o quanto amamos alguém. De tudo, o meu maior clamor é para que não esqueça que este é o adeus de um alguém que mantém escálida a esperança de que um dia nos reencontremos pela curta estrada da vida. Digo agora meu último adeus, antes de ir para um lugar onde não haja mais novos recomeços...

Com eternas saudades,

Sérgio

- Por favor, o senhor pode dirigir-se até o próximo balcão. Estaremos redirecionandos os seus dados para o atendente responsável pelo seu requerimento, senhor. Sua senha é 299831
- Mas esse já o terceiro guichê que...
Seu Zé foi interrompido por uma estilhaçar de janelas; era o prenúncio de assalto.
- Bora, bora! Todo mundo no chão!!!
Seu Zé, ainda de pé dizia:
- Ô meu filho, minha artrose tá me matando hoje...
Ignorando o senhor biruta que falava, o assaltante continuou anunciando:
- È véspera de natal. Contribuam com os celulares e com a grana pro papai Noel aqui. - falava o assaltante entre frouxos de riso.
- E o senhor aproveita que já tá em pé e vai passando a graninha aí. - completou o seu comparsa, referindo-se á seu Zé.
- Como é que é meu filho? - perguntou seu Zé.
- Passa a grana, coroa. Tá surdo?
Seu Zé estava entre risos e gargalhadas...
- Qual é tiozão? Tá curtindo com minha cara? Passa a grana, porra!
- Ô meu filho, não me leve a mal não viu? Vou indo...
E entre passos firmes em meio de corpos trêmulos no chão, Zé deixou o banco com o seu salário de míseros 200 reais. Os assaltantes incrédulos nada falaram com seu Zé, que atrasado para o trabalho saiu a passos largos. Intacto, ileso ele fugia daquela situação. Enquanto pensava nos assaltantes que vieram com aquela conversa ridícula de "Isso é um asssalto" . Faça-me o favor...que piada! Acho que hoje 200 reais não dá nem pra comprar um perdão de alguém? Dá? - resmungava o velho senhor a caminho da fábrica onde trabalhava.
Uma vez em segurança, ele ligou para a polícia
- Alô...
- Pois não
- Está tendo um assalto no banco da Avenida Central. Eu consegui sair de lá agora.
- O senhor está bem? Não está machucado? Há reféns?
- Eu estou bem. Há cerca de vinte pessoas lá.
- Pois bem. E quanto roubaram do senhor?
- Nada. Eu saí de lá sem que me roubassem.
Risos...
- Não levaram nada, cara?!
- Hum...não!

- O senhor levava algum dinheiro na carteira?

- Uns 200 reais.
- Vá procurar o que fazer,seu velho safado. Hora de parar de passar trote pra polícia e crescer não? - finalizou o policial do outro lado da linha enquanto ria daquele trote.
- Mais uma vitima da piada que é o mundo contemporâneo. Esses caras não crescem nunca que o tempo passa?
Seu Zé, sem entender muita coisa, colocou o telefone no gancho e foi para a fábrica pra mais um dia de trabalho.....



sábado, 1 de novembro de 2008

Redenção




- Alô?
- 20 Horas. Av. Redenção, Rua da Esperança. 1726.
- Mas...
- Esteja lá ou será muito pior...Sua frágil Marcela vai morrer, você sabe disso não é?

" Tudo seria diferente se eu não tivesse fracassado "
Esse foi o pensamento que acometeu o engenheiro elétrico Roberto ao levantar de sua cama e encarar a sua sombra no espelho. Aquele dia mudaria a vida de pessoas importantes. E a sua responsabilidade nisso pesava fortemente sobre os seus ombros. Sem agüentar encarar aquela emoção sombria por muito tempo, ele saiu do quarto com os olhos cheios de lágrimas e deixando a barba por fazer...
Andar pela casa não reduzia nem um pouco a ansiedade invisivel que rondava o seu corpo. Inerte em pensamentos, com um porta retrato nas mãos, a alucinação causada pela missão que aquele dia reservava só fazia aumentar mais e mais. A ansiedade estava sendo multiplicada a cada segundo que passava.

Meses atrás...

- Sei que você não vai mudar, Marco. Já entendi que o que me resta é rezar por nós. Porque se algo acontecer a você ou Sofia eu não vou aguentar...Eu juro que não vou aguentar. - falava Marcela com a voz embargada encarando a face arrependida do marido.
- Eu vou resolver isso. Confia...
- Confiar? Como eu vou confiar neles? Como eu vou confiar nesses...bandidos, hein Marco?
- Calma...Olha nos meus olhos e diz que confia em mim.
Aqueles olhos castanhos encontraram os seus pela milésima vez desde o dia em que Marco havia conhecido Marcela, há 6 anos, na rua, enquanto ela lhe vendia o corpo para sobreviver.
- Eu confio em você
- Eu te amo...
- Também te amo. Sem você...eu não sei o que seria de mim...
Marco deu um breve beijo em Marcela e três minutos depois já tinha relevado aquela discussão...Marco acreditava que aquele seria apenas um episódio isolado. Não sabia ele que essa seria mais uma das muitas cenas idênticas que seriam lembradas e ruminadas nos próximos meses levando-o aos precipícios da loucura e insanidade.

Marco sentia cada vez mais perto o final e a decisão que tomara na semana anterior fazia suas entranhas se movimentarem em ritmo vertiginoso. O medo apertava-lhe o coração.
Uma carta deixada sobre a mesa explicaria tudo que aconteceria no fim daquele dia. Debruçou-se e traduziu em palavras a tragédia prenunciada. Deixou todos os segredos ali, derramados sobre o papel.
Enquanto olhava uma fotografia ele chorava e chorava prometendo a si mesmo que cumpriria aquela missão, independente de tudo, custasse o que custasse.

A estrada crescia a cada passo seu. Enquanto o desejo de acabar com tudo aquilo se tornava ávido e a hora se aproximava, Roberto mais trêmulo ficava.
Já eram 19:48 quando ele chegou ao local combinado.

- Pois bem. Vejo que ainda lhe resta alguma coragem, seu idiota.
- Onde elas estão?
- Sabe por que está aqui, não sabe? - respondeu Mikail ignorando completamente a pergunta de Marco.
- Sei.
- Pois então...vai baixando o tom, rapaz...você é o último que pode abrir a boca aqui.
- Você nem pense em chegar perto delas.
- Pois bem...Vamos entrar, conversar...A noite só está começando.
O bandido trancou a porta logo depois que ele entrou. Definitivamente, ele mataria os três ali mesmo, sem um pingo de piedade. Para Marco não restava dúvida que o bandido apostava em três presuntos deitados no chão e um chop com uma mulherzinha mais tarde.
Tudo corria como o esperado...

- Aqui estão as suas preciosidades. A bebezinho irritante e a mulher gostosa.
Ele partiu para abraçar sua mulher, ignorando o algoz...
- Me perdoa. Me perdoa!
- Não se aproxima de mim! Sai daqui! - falou uma Marcela indiferente á situação.
- Ih! A patroa não quer conversa hein?
- Cala a boca, imbecil
- Opa patrãozinho...vai relaxando...eu to achando que os três vão estirar as perninhas hoje.
- Cala a boca aí, Zé.
- Não provoca Marcela. Ele pode machucar você, deixa que eu cuido disso...
Risos...risos do bandido e de Marcela. O que estava acontecendo ali afinal?
- (tosse) Então...Como vai ser Marcela? Quem vai matar ele? - falava Zé
- Eu mato.
- O quê?? Marcela? O que está acontecendo?
- Nada, querido. Só preciso que você fique paradinho para eu atirar na cara pálida, ok?
- Marcela? Você...você me traiu?
- Nossa...maridinho esperto esse o meu não? Você achou mesmo que eu ia ficar com um idiota como você? Ainda mais envolvido nesses crimes todos aí? Porra nenhuma cara! Em dois meses iam te pegar e eu que ia me ferrar. Eu e minha filha vamos sair daqui e vamos usufruir do seu dinheiro até o último centavo...Serei a vitima da história. A sequestrada, a mãe viúva, coitadinha de mim!
- Sua piranha! Vagabunda!
Um estampido. O tiro foi certeiro. Missão cumprida. A polícia estava a caminho. Tudo teria de acontecer em poucos minutos. Os olhos marejados derramavam lágrimas falsas enquanto limpava as digitais da arma.
- Você é um idiota mesmo, Marco. Cair no conto da puta arrependida é mesmo coisa de panaca. Adeus!

Marco morria ás 20:04, na Rua da Esperança.

sábado, 4 de outubro de 2008

Talvez, não sei.

Sigo meu instinto e me descubro na trilha dos seus pensamentos.
Pulmões enlouquecidos farejando o cheiro doce da sua pele.
Imagem focada na minha mente...um reflexo que me traiu

E enquanto no passado, meu coração pulsava só por pulsar, hoje te procuro nesse mesmo passado como um leão caçando sua presa, procuro como bandido rendido ao desejo de roubar seu encanto.

Talvez as rimas sejam pequenas para dizer,
Talvez as palavras sejam insuficientes para explicar, mas é que quando o amor bate a porta e o mistério da paixão pousa no ar todos sabem que é impossivel lutar.

Talvez exista esse tal de cupido e ele pode mesmo ter me acertado com sua flecha, me tomou por assalto, violentando o coração dentro do peito. Dizendo que é o fim dos tempos de silêncio e solidão.

Devaneando, ouço suspiros de amor nos meus ouvidos, bobagem, é só um teste de fé. São os passaros tocando uma música estranha para os saudosistas, uma homenagem aos velhos amantes, como eu.

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Meu Brasil

Mostrando suas delicadezas e seus encatos
És a terra da natureza
E com certeza
A fonte incessante de beleza
Dentre as Riquezas
Especiarias de grande aroma e sabor
ès terra de esplendor
ès tu, Brasil, meu amor
aqui a vida é mais gostosa
Terra de gente maravilhosa
Lugar abençoado
Para o mundo admirar
Com flores exuberantes
De aspectos exorbitantes
Ès tu, terra, pela qual cultivei paixão
És tu, Brasil, eterna terra do meu coração

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Queria escrever no céu
e moldar nele os contornos da minha alma
queria escrever para poder mostrar o brilho dos meus olhos nas estrelas
Num céu belo eu escreveria
se pudesse mostrar quem eu sou
Mostrar a luz das minhas qualidades
e a escuridão dos meus defeitos.
No céu escreveria eu, se pudesse
para dedicar ás galáxias as minhas palavras
e a força dos meus ideais inerentes a mim
Céus, como gostaria de escrever em sua amplitude
e difundir a sua atmosfera em palavras belas
Se me fosse permitido escreveria lá
Assim, eu seria em um breve instante como Deus
capaz de ver e moldar o mundo que vivo e admiro.

sábado, 27 de setembro de 2008

Repetições


-Olha pra mim quando eu tiver falando com você, neguinho - falou o policial com arma em punho.
- Eu tô olhando! - respondeu Marquinho ligeiramente alterado.
- Qual foi Rubem? Porra mano, na moral, deixa agente em paz. - interviu Zé.
- É Rubem, agente não fez nada, pô. - completou Edu.
- Quem diz se vocês fizeram ou num fizeram alguma coisa aqui sou eu. É melhor você ficar pianinho, senão o bicho vai pegar pro lado de vocês.
- Deixa o Marquinho ir...na boa, cara. Você é nossa corrente.
- E você cala a boca também. Quer ir em cana? Se quiser eu posso te levar agorinha...Ou melhor, posso mandar os 6 pra lá. - e ainda mais alterado, continuou: - E quem sabe não seja isso que você queira não é Robertinho? Ficar lá com o filha da puta do seu irmão...
- Como é que é? Olha como você fala do meu irmão, seu desgraçado.
- Como é que é o quê? Qual foi neguinho? Quer morrer é?!
Antes que ele reagiasse a lembrança do seu irmão o fez ponderar a situação...e assim conteve seus instintos.
- Foi mal. - respondeu Robertinho engolindo em seco - Podemos ir agora, por favor?
- Melhor assim...Bem melhor assim. - finalizou dando-lhe um leve tapa no rosto.

O Ódio sempre fervia em suas veias a cada vez que ouvia o falar no policial. Sempre onde os 6 estavam eram incomodados pelo policial. Na festa, na rua, em suas próprias casas, o policial estava sempre de olho neles. Zé era o que mais reclamava. Mas o que podia fazer? Tudo o que estava acontecendo com o irmão do Marquinho era complicado e comprar uma briga que poderia pegar pro lado do amigo era uma verdadeira fria. O melhor a fazer era ficar de boa. "Tudo para manter a unidade". Esse era o lema dos 6. Desde a infância, quando ficaram amigos, estavam juntos o tempo inteiro e nada mudaria isso.

Aquele era dia de visita, seu irmão sairia da cadeia dentro de 2 ou 3 meses, mas nas últimas vezes que o vira, a cor saudável que nutria seu corpo no passado estava ficando cada vez mais amena, escondida e sombreadas por trás da carcaça do irmão. Eram bons irmãos, amigos, antes de tudo. A fé em Nossa Senhora fazia com que ele acreditasse que tudo ia melhorar. Retirado de seus pensamento sentiu uma protuberancia incomoda ao encontrar o corpo do irmão no abraço.
- O que é isso cara? Isso...Isso é uma arma, Brother?
Silêncio.
- Responde, porra, você tá com uma arma aí, caralho? - impacientand0-se
Olhos nos olhos. Não era preciso dizer nada. Ele estava aprontando, conhecia seu irmão melhor do que todos.
- Ou você me dá isso agora e vai pensar na merda que você ia fazer ou então eu conto tudo pra mãe e vai ser pior depois...Você quer matar ela de desgosto? É isso?
- Mas...
- Não! Chega de você colocar a gente em confusão. Já chega de você ditar o modo como a nossa vida anda...
- Porra, também não é assim...
- É assim sim! Me dá a arma agora...
Guardando dentro da cueca o artefato de metal pesado, Marquinho voltava para se encontrar com os amigos e pensar no que fazer com aquela porcaria, quando o policial apareceu em seu caminho.
- Ora ora, veja se não é o aprendiz de traficante. O viadinho tá voltando da visita é? Você sempre chora que visita o irmãozinho?
- Saí da minha frente! Eu preciso ir - respondeu apertando o passo.
- Igualzinho ao irmão. Um bandidinho...Um viadinho pretencioso. - Marquinho ouviu o policial dizer num sussurro.
Naquele momento, Marquinho sentiu o seu corpo gelar, seus olhos se fecharam na tentativa de controlar e afastar a idéia absurda que se materalizava em sua mente. Suas mãos tremiam, era enorme a fúria que sentia no mais profundo de si. Seu rosto endurecia, enquanto sua alma se contorcia a cada palavra que saía da boca daquele policial maldito. E sem pensar em mais nada, puxou e disparou o gatilho da arma que estava guardada. Ao som da bala, aceleram-se passos ao seu redor, o grupo dos 6 chegara e ao encarar aquela cena estava automaticamente determinado que nunca mais a unidade seria mantida.
Estava tudo acabado.

"Pernas e cabeça na calçada" - baseado na Capoeira de Oswald de Andrade.

sábado, 6 de setembro de 2008

Conduzindo

Conduzir é um ato de promover escolhas. Eu conduzo minha vida como se integrasse umaa banda, acompanhando o ritmo que os destinos determinam, administrando a canção e ouvindo a inspiração de Deus para compor a letra, dtando a melodia está o bom senso. Tento manter a afinação e com o máximo de sensibilidade e técnica, vou cantando mesmo sabendo que os últimos acordes podem estar no próximo minuto. Conduzo minha vida como se ela fosse um intertexto eterno. Posso estar de bermuda ou calça social, mas estou sempre acrescentando novas linhas a essa música, essa grande poesia. Essa é minha vida, perfeitamente transformavel em filme, em desenho, em argumento. Estou buscando entender o mundo á minha volta, desde as palavras até o modo particularmente encantador como cada pessoa conduz a sua vida, vou compreendendo o funcionamento de tudo que se apresenta a minha frente. Estou descobrindo aos poucos como adquirir novos conhecimentos, construindo um pouco mais de mim, mesmo entre empecilhos e estações secas ou muito chuvosas. Desde o riso até o choro, do choro até o pranto, do pranto até a luz, conduzo minha vida mesmo não sabendo onde a estrada vai levar. Assim, em última análise, sou também um cara comum, com uma boa família, alguns bons amigos. No final da história, acho que conduzo minha vida como estivesse num carro, afinal a vida é um estágio passageiro, a morte é uma parada certa e as curvas são as escolhas que as possibilidades nos conferem. Enquanto uns estão conduzindo o automóvel no sinal vermelho, outros estão apenas acelerando no sinal verde. Eu? Fico com o amarelo.


- Não Fred. Não lemos jornais.
- Não gostamos de televisão.
- Não devemos jogar basquete, nem lutar boxe.
- Quando a revolução do mal acabar...E não me pergunte mais isso por hoje. Está acabando com a minha paciência! Agora volte para o seu quarto e vá ler seus livros. - dizia Berta aos olhos azuis lacrimejantes de Fred que indagavam quando poderia asssitir á televisão. Fred, 6 anos de idade, ia para seu quartinho no fundo da casa ler os livros como a sua mãe recomendara. Era assim quase todos os dias, tudo se repetia como num ciclo, numa disciplina quase irritante.
Um dia, num ímpeto quase infantil, o garoto perguntou:
- Por que faz isso comigo?
Ao ver a fisionomia de Berta se transformar tão abruptamente, ele engoliu em seco e deu passos para trás, em direção ao porão. Por que Berta olhava tão furiosamente para ele? O que estava acontecendo?
Um tapa. Tão forte que mandou para longe a ingenuidade do garoto...e os anos passaram.
Fred estava com seus 15 anos e já não saia mais do porão, desde aquele dia fatidico, vivia ali, enfurnado em meio á estantes de livros. A luz entrava por uma pequena fresta. O local era ventilado por tubulações internas. O frio arrebatador, mesmo num espaço de tão poucos metros quadrados, vinha intensamente todas as noites. Berta entrava no porão empoeirado, colocava o almoço, ás vezes voltava para colocar o jantar, mas nunca deixou de entregar novos livros para ele ler no dia seguinte. Para ela não importava se sentia fome, sede ou frio. O mundo resumia-se áqueles livros. Mas esses livros nunca dariam respostas ás tantas perguntas que ferviam na mente de Fred. As imagens estavam milimetricamente arrancadas, palavras escolhidas a dedo estavam borradas de modo infalível, perfeito, para apagar qualquer centelha daquela curiosidade que o fazia acordar pela manhã para descobrir um pouco mais do mundo que não conhecia, mas que existia em algum lugar fora do porão. Tudo era coordenado para não despertar sua curiosidade, nem aguçar a sua imaginação, quiçá aflorar sentimentos. Da boca torta e quadrada de Berta apenas ouvia que o mundo era feio e que os homens lá fora eram maus, a única liberdade que Fred conhecia era a de interpretar um livro e essa era a única linha explicativa pra as tantas vezes em que ele tentava entender o porquê de não ter sucumbido á proibição de conhecer o mundo lá de fora, era o único motivo para estar vivo. Agradecia a vida á sua ânsia de entender o mundo. Enquanto Fred se deparava com mais um livro decepcionante, Berta saía sem dizer uma palavra, sem se quer desejar boa noite, sem dar-lhe um abraço. O quarto cheio de livros e mundos que Fred havia visitado tantas vezes estava ficando cada dia menor e mais entediante. Os pensamentos já não ruminavam mais dentro de sua cabeça, não havia mais espaço para nada naquele lugar. As estantes empoeiradas, cheias de livros complexos e repletas de matemática avançada e ciências já não eram atrativos para os olhos de Fred que perderam o azul brilhante para dar lugar ao amarelado das páginas dos velhos livros.
Enquanto lia o dicionário pela 14ª vez naquele ano, o choro vinha em espasmos, aquele era seu livro preferido, o mais esclarecedor de todos. Sofrimento e solidão esvalam dos olhos, quando lia as palavras preferidas: Perdão, Redenção, Vida. Estava pronto pra exercitar cada uma delas, bastava que Berta lhe desse oportunidades para isso. Os olhos doiam e a mente suplicava descanso, o sono era o único refúgio de Fred. Aquela não era mais uma manhã qualquer. Era especial. ele completava 21 anos de idade, sorria, na feliz constatação de que sobrevivera por mais um ano. Estranhamente, pensamentos vinham atropelados na mente de Fred, parecia até que algo ia acontecer. Berta, entrou no porão com um sorriso medonho nos olhos pra deixar a comida de terças-feiras, mas por algum motivo o clique da porta que indicava que ele havia sido trancado no porão não foi audivel, ela esquecera de trancar. Fred sentiu as pernas tremerem, as mãos suavam, estava inquieto e fervorosamente nervoso com a possibilidade de fugir. Puxou a marcenta com toda a força e velocidade. A luz invadiu o mundo. O sol lá fora iluminou o seu mundo. A claridade o cegou, caiu de costas, desnorteado, bateu a cabeça num livro jogado pelo chão. A ânsia por conhecer o mundo terminara por destruí-lo de uma vez por todas. Morreu por conta de um livro e pela ânsia de querer o mundo inteiro para si.

sábado, 16 de agosto de 2008

Sonhos

Após o término da missa, o Padre passou mais uma vez deixando uma moeda para o menino cego. Lá estava o garotinho, orfão de mãe e pai sempre pedindo esmolas sentado em frente á igreja de São Bernardo. Cego de nascença, seu maior desejo, assim como o de todo garoto de sua idade, era andar de bicicleta. Dessa fase, nenhum de nós está a salvo, o gosto pelas bicicletas é quase uma constante universal (durante a infância) entre as crianças. No fim de tarde primaveril, o menino pedia esmolas, não para comprar comida, mas para completar o dinheiro para a tal bicicleta. Durante todas as missas estava sempre mentalizando o seu desejo e pedindo ajuda divina, mesmo estando deitado em meio ás caixas de papelão e sujeito ao frio das ruas, ele mantinha-se acreditando. Apenas o padre dava alguma moeda, as freiras tratavam-no como um cachorro maltrapilho em frente á igreja. Até que logo mais a noite, após anos de espera, o padre consegue uma bicicleta velha para o menino. Tamanha era a sua alegria que montou no banco e saiu pedalando sem nem ouvir qualquer recomendação do padre. Por segundos preciosos o mundo não mais tão imenso e amedrontador. Pelo contrário, tudo fora reduzido a apenas o cenário onde estavam o menino e o seu sonho realizado protagonizando uma cena de teatro. Não haveria como naquele momento ouvir o motor de um carro ranger, vindo em alta velocidade no meio da chuva em sua direção. O carro tentou desviar, mas não foi possivel. O impacto foi forte, arremessando-o para muito longe. Porém, ao cair no chão, não foi a enxada da morte que o atingiu. O sangue podia estar escorrendo das veias, mas não faltava força fluindo dentro de si. Os músculos podiam estar tensionados, mas não era dor que ele sentia. Os olhos podiam estar desnorteados e fora de órbita, mas a luz dentro deles permanecia forte como um farol. No soprar do vento, no molhar da chuva, ao som da madrugada o espirito do menino cego e o seu sonho, uniram-se num só corpo, numa única sintonia, estavam despreedendo-se aos poucos do contato corpo e alma. Seu sorriso sincero mesmo no corpo desnudo de vida brilhou. Fato é que seu espirito transformou-se numa centelha de luz que ilumina o céu que permeia as noites. O garotinho da bicicleta transformou-se na tal como conhecemos hoje, estrela cadente. Hoje, ele é a esperança do anoitecer para aqueles que vivem na escuridão, mas que nunca desistem de sonhar.


Renovação. Esse era o objetivo que se firmava na vida de Clay. Visceral era o sentimento que arrebatou o corpo do rapaz e a voz da alma veio faze-lo descobrir a vida onde não já havia vida. Naquele momento era a libertação do seu passado marcado por chagas doloridas, naquele momento ele não lembraria de nada que lhe fizesse doer o coração. Ficaria ali com ele, apenas a lição de vida para que ele seguisse adiante em paz, o que perdeu até hoje, ficaria perdido no passado.
A tempestade estava prestes a começar, tão instanteamente como nos filmes de Hollywood os primeiros filetes de água caiam aos seus pés e aos poucos Clay sentia como se seu corpo estivesse alimentado por uma força e determinação de um ser imortal. Um novo homem nascia como uma flor em pleno o berço do sertão, uma fênix renascida das cinzas. Enquanto a água o tocava, o seu renascimento se completava e o calor voltava ao seu coração. Seu corpo estava leve e de forma inconsciente ele abriu os braços e sorriu serenamente para o céu tempestuoso.
E bem baixinho, apenas para que Deus ouvisse, ele disse:
- Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
Um trovão veio e enfim, assim como o céu acima de sua cabeça, o homem chorou.

sábado, 9 de agosto de 2008

Uma fome


Sinto uma tal de uma fome. Parece um pouco estranho, mas minha fome já dura muito mais de oito horas ou oito dias. Não sei quando começou, mas sei que senti uma fome, os tempos passaram e enquanto espero uma nova refeição, meu estômago é esmagado, estraçalhado por dentro das minhas próprias entranhas. Sinto uma fome que vem cada vez mais forte, ela mistura o suco gástrico do meu estomago, queima com ácido de ph 2 as paredes do meu corpo, corrói aos pouquinhos, as paredes já tão desgastadas e reviradas dentro de mim. A vida já está frágil, por um fio. Sinto uma fome, será que estou morrendo? De longe, vejo pesoas bem alimentadas de um lado para o outro.. Alguém tem um prato de comida? Alguém pode me ajudar? Essa fome que me deixa angustiado, me faz andar de um lado para outro sem ter no que pensar, sem ter onde me apoiar. Suplico por ajuda, mas o mundo está mudo, ou será que sou eu que estou surdo? Sinto ódio. A fome aumenta. O estômago arde, nos lábios tocam um liquido salgado, comida? Não! São lágrimas. Olho para o espelho, vejo um ser franzino, profundamente fraco, um absoluto conjunto de nadas. A fome me consumiu? Vou sair de casa, preciso saciar a fome. Estou ficando tonto e não consigo chegar até a porta e antes de perder os sentidos, percebo que estou caindo, estou a um metro do chão. Chego á uma triste constatação: Essa fome não é de comida...mas, Deus, de onde vem essa fome???

terça-feira, 1 de julho de 2008

O espelho


Um olhar para o espelho foi suficiente para que ele se revelasse.
- Está atrasado. – disse Tom sério.
- É, eu tô, mais alguma verdade pra esfregar na minha cara? – retorquiu Josh.
- Já não bastavam as contas pra pagar...o cachorro que você deixou ser atropelado, ainda aguento um bossal.
- Cala essa boca! Que espécie de saco de merda é você?! Um dia desse eu não volto mais aqui. E aí eu quero ver.
- Você quer ver o que?
- A sua ruína"
- Você é mesmo um...
- Um o que? Cala a boca, John.
Você é um imbecil mesmo - uma pitada de arrependimento - Desculpa cara, é que eu tô puto hoje.
- Não vou perder tempo, vou gastar meu dinheiro essa noite sem pensar em você, nem sei mesmo porque eu vim aqui - retorquiu um John levemente ofendido.
- "Não vou perder tempo com você" – imitou Josh com humor.
Quantas vezes já haviam se encontrado ali? Onde foram parar as conversas civilizadas? - perguntava-se Tom.
Hoje ele está mais que enjoado, isso é falta de sexo - pensou Josh encarando o seu reflexo e sorrindo.
Mesmo com todas as diferenças, John e Josh encontravam-se eventualmente durante as noites sem sono em frente no espelho para partilhar a vida alheia.
- Olha Tom, - retomou Josh - você está precisando desestressar. Eu vou resolver as coisas. Eu faço esse favor pra você.
- Isso é uma piada, Josh? Certamente, você se meteu em alguma roubada nova e eu que vou ter que segurar as pontas, né? Bateu em quem dessa vez? Robert? Nash?
- Não é nada disso....Quer dizer, ah, eu vou aí, vou pra uma boate e amanhã quando você voltar, vai estar novinho em folha..amigos novos, namorada nova e tudo. Eu e o meu charme garantimos sexo de qualidade...
- Você fala de um jeito, como se eu fosse um robô...Mas não tem problema...eu sei que você está em mais alguma de suas roubadas e tá precisando do meu conhecimento jurídico a seu favor - riu o ‘abobado’ Tom
- Qual é? Vai dizer que não ta precisando de mim aí também?
- Não...não estou não - Quer dizer....Ah, e você vai dizer que a minha presença aí não tem serventia?
- Claro que não tem...Quer dizer, tem uma parada aqui pra você me dar uma forcinha...
Os dois caíram na risada e Josh disse:
- No fundo você sabe que eu gosto de você, boboca!

– Será que você sabe falar dez palavras sem dar um apelidinho idiota pra mim? Você não vale nada, mas até que é um bom amigo.
Esse era um momento de comoção. Eles sabiam que independente dos problemas enquanto houvesse o outro, era possivel orientar as coisas. A magia do espelho era um enigma pra os dois. Mas era ali que um usufruía a vida do outro, numa troca de experiências e por breves momentos numa troca de personalidades adormecidas dentro de cada um deles.
Tom e Josh se olharam mais uma vez, sorriram um para o outro e fecharam os olhos. Quando voltaram a abri-los, Tom era Josh e Josh era Tom. Apenas por uma noite.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mundo decepcionante


O mundo não me decepciona, eu decepciono o mundo. Quando escolho ser quem sou quando quero, quando não sou quem sou quando não quero, ou quando escrevo passagens loucas como essas, sou eu que decepciono o mundo. Já não consigo suportar o mundo querendo mudar e me mudar junto consigo. Quero deixar de me ver infinitamente pequeno diante de tantos prédios, diante de tantas casas...Cansei de ser formiga andando pelas ruas, tragando fumaça de ambição e crescimento desenfreado.
Quando acordo de manhã, já vem alguém batendo furiosamente na porta me trazendo o novo ipod com 23 gigas de memória sem nem ao menos eu encomendar nada, dizem que é de graça, um brinde da empresa. Antes que eu pense em tomar café, já está lá a cafeteira que faz um expresso quentinho em menos 56 segundos. Ao entrar no carro para ir ao trabalho, percebo que estou numa Hillux 2.0. Fecho os olhos e por um momento sinto que vivo bem sem o mundo no meu pé, tudo é escurinho e aconchegante sem tantas inovações...Será que dá pra sem ele viver? Ouço um som que me corta o pensamento: O carro foi sozinho até o Mc Donalds. É a atendente perguntando se eu quero a oferta nº 17 com batata tripla e refrigerante duplo. Arranco o carro sem nem responder, porque estou atrasado para o trabalho. Me surpreendo voltando para minha casa! para uma reunião em video conferência, ainda não sabia que a reunião era por messenger...Como agradar um mundo cheio de imposições, inovações? Não tenho argumentos pra ele e ele não tem justificativas pra mim. È dificil aceitar que eu tenho que ser assim para esse mundo de hoje. Eu tenho que mudar para o mundo, mas porque o mundo é incapaz de mudar por mim? Já está de noite, os workholic se despedem e fecham a janela do messenger. Penso em dar uma volta pela rua, mas se eu saio na rua com meu celular tijolinho da Nokia e o assaltante me encontra, ele me dá uns 10 reais e ri da minha cara dizendo que eu sou um idiota. Não vou passar essa vergonha, prefiro ficar assistindo a um filme na LCD. Penso que tudo se resume a uma luta desleal de um misero corpo de 80 quilos contra uma massa que eu nem sei quantos zeros leva no final, eu versus o mundo. Os meus passos são tão precisos, a vida é tão hermética, por que não mudar pelo menos por um dia? Amanhã eu vou sair dessa grande redoma de vidro, com hora pra acordar, dormir e chegar seria uma experiência no mínimo inusitada. Sou novamente interrompido em meus pensamentos pela banheira de última geração que prepara automaticamente um banho e me convida para terminar a noite de um jeito bacana, quem sabe admirar as estrelas do papel de parede do meu banheiro. Deito lá na banheira, esquecendo que sou um robô, enferrujo, entro em curto...Adeus, mundo decepcionante, adeus...

Mentiras sinceras


Tudo começa com os pais mentindo sobre o bicho papão debaixo da cama caso a gente não durma, depois vem a "pró" falando que somos a sementinha que o papai colocou na mamãe, os tempos vão passando e se falar o contrário, o cinto do papai, a palmada da mamãe ou o carão da "pró" fazem tudo virar verdade, quer você queira, quer você não queira. A partir daí, a vida torna-se um redemoinho de ilusões. Aprendemos mentiras nas cadeiras das escolas, umas desculpas esfarrapadas pra não ajudar a lavar os pratos e outras para os atrasos do jantar no sábado a noite com aquele colega chato, pra completar, aprendemos uma gama de doenças pra faltar ao trabalho na sexta feira. No amor, nas amizades, entre parentes e desconhecidos, tudo não passa de mentiras consumindo mentiras. Nas novelas, assistimos atentos o amor lutando para prevalecer e no fim, como mágica, a vida segue um curso tal que todos terminam felizes, saudáveis e comovidos em cena, perfeitamente viável, não? No meio desse belo conto de fadas que chamam de vida, me resta acreditar que no mundo há igualdade, que o céu é azul, que não posso colocar o dedo na tomada, que devo ser grato aos meus pais por me colocarem de castigo só porque disse que aquele vaso da tia Gertrudes era pra lá de esquisito...Será mesmo que devo acreditar no mundo, mesmo sabendo que tudo não passa de um redemoinho de pequenas mentirinhas sinceras?

O ex-presidiário

Seu Jonas estava deitado na cama e ficava lá por muito tempo a imaginar qual a reação das pessoas lá fora acaso soubessem que ele ainda tinha sonhos. Quem diria que era possível sonhar com o aconchego de uma casinha e uma plantação de flores depois de viver tantos anos na cadeia? A prisão transformara o rapaz em um senhor com um semblante tristonho e um tanto cansado, mas ele ainda tinha uma centelha de esperança.
Seu Jonas não se considerava um homem velho, tinha 53 anos, era um senhor apenas "vivido". Nem todos o viam dessa forma, muitas pessoas o consideravam apenas um ignorante pelo seu jeito torto de falar, mas por que se importar com o que pensavam dele onde ele estava? Não tinha uma casa para colocar comida na mesa, não tinha filhos para nunca deixar que faltasse nada e nem uma mulher para proteger, logo não devia nada a ninguem. Era presidiário, era um detento, sequer tinha um nome a zelar...
- O senhor pode se dirigir por aquela por ali, por favor. Está livre. - disse o guarda Zé, despertando-o de seus devaneios. Certamente, Zé estava preocupado e pomposo demais só por estar na frente do defensor público que acompanhava o caso do ex-presidiário.
- Obrigado, então...adeus, Zé - falou Jonas admirado por nunca ser tratado assim naqueles anos todos. Pelo contrário, as lembranças que tinha da cadeia eram algo que estaria em seus pesadelos mais assustadores a partir daquele dia. Mas, apesar de tudo, estava livre agora, era isso que importava.
Fora da penitenciária, a luz do sol quase cegou os seus olhos acostumados com o frio e a penumbra de sua cela. Tantos sentimentos rodeavam seus pensamentos... Dali em diante, seria um passarinho solto, mas que não se lembrava como era voar. A vida dos ex-presidiários não era digna para quase ninguém. As perspectivas beiravam as portas do inferno. Desemprego, preconceito, discriminação, a vida em si, normalmente, era a continuação da prisão e da culpa que carregava por seus crimes. Se pudesse voltar no tempo...
Não! Ele enfrentaria tudo com garra e determinação, estava livre e era isso que importava agora. No fundo, o homem preferia acreditar que tinha motivos para encontrar a felicidade e a redenção. Estava solto afinal! Deu os primeiros passos e ouviu alguém dizer:
- Ei, seu velho marginal - falou alguém ás suas costas - Vocês saem daí pra piorar a situação dessa bosta de país! Filho da puta, você vai morrer, desgraçado!
Quando o ex-presidiário olhou pra trás, viu um grupo de rapazes correndo em seu encalço com uns pedaços de madeira nas mãos. Ele saiu correndo, desesperado sem olhar pra trás e sem saber pra onde ir. Lá na frente, tropeçou em alguma coisa, caiu com a cara no chão. Os meninos haviam sumido. Conseguira fugir, lágrimas de terror escorriam dos seus olhos. Enfim, respirando mais fundo, estirado numa calçada, constatou que foram preciso exatos dois minutos para a centelha de esperança do libertado Seu Jonas se apagar de uma vez por todas...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Encerradas as incrições

Declaro que estão encerradas as inscrições para as vagas. Fica declarado a partir desta que aqueles que se aproximarem serão retaliados e perseguidos vigorosamente, podendo sofrer danos fisicos irreversiveis. Declaro também que não há motivos para quaisquer espécies de reinvindicação. Revigoramos que também que não serão atendidos telefonemas, não aceitaremos sentimentos como pena e piedade pelos fatos e decisões já consumadas. Constatou-se que há a possibilidade de perda de estabilidade e controle emocional do individuo que vos fala, podendo causar constrangimentos dos quais a empresa não se responsabilizará. Atenção: Não aproximem-se! A direção admite que as nossas matrizes não mais serão fragilizadas de modo algum e permanecerá em funcionamento com o seu padrão de qualidade. Encontros serão desmarcados, fotos serão rasgadas, festas serão abadonadas e intervenções quanto ao novo modelo desta empresa não serão acatadas. Minha vida continua...sem vocês.

O quarto


Enquanto as folhas caem das árvores lá fora
Eu limpo meu pequeno quarto
É tanta Poeira..sujeira..tristeza...
Ás vezes no silêncio da noite
Deito nessa cama e rastejo como um lagarto
Encarando no espelho a minha imagem cheia de cicatrizes
Quantas vezes o amor, me tens ferido...?
Eu me encosto num ombro imaginário
e repouso minha cabeça num colo inexistente
Eu fico recluso nessa minha gaiola
Sufocado e cansado da minha própria presença
E ao erguer as janelas
a luz não entra no meu quarto
Eu me afundo na minha cama de dorsel e em minhas intenções debaixo dos lençois
E quando desperto volto ao meu trabalho de cuidar do meu quarto
me perguntando o porque...
de fazer tanto frio e eu ainda ter de dormir aqui

O palhaço


O palhaço infeliz amava profundamente. Mas por que amar? Amar não garante o sustento de ninguém. Se enfermeira tiver nojo seus pacientes, ela ainda tem as mãos para limpar o pus da ferida. Se o político não gostar do povo, ele ainda tinha voz para mentir e ter voto suficiente pra ganhar a eleição. Se o juiz não cumprisse a lei e ordem, ele ainda tinha a propina para comandar o sistema juridiciário. Ah, amar é só um requisito besta que alguém mais besta ainda inventou, nem sabendo a utilidade dessa porcaria. O que ele sabia que era hora de deixar de amar. Amar era segundo plano, o mundo mostrou a ele. Pra quê amar? Suas apresentações carregadas dessa emoção eram uma palhaçada sem graça, ninguém se importava, afinal. Tudo que temperavam com esse tal de amor tornava-se uma história sem enredo, sem sentido, sem porquês. Se o público não valorizava o seu amor, pra que amar o amor? Besteira. Era hora de tirar essa coisa horrorosa e brega de suas apresentações. O trabalho duro era que divinificava, que botava a comida na mesa a noite e o café quente com pão pela manhã. Amar? Amar decididamente é algo secundário.

* Fabiano

Valeria - A catadora de feijão


Preparando refeições e colocando a conversa em dia, Valeria catava o feijão numa bacia apoiada por entre as pernas. O restaurante precisava dela e domingo era o dia de catar o feijão, tratar as carnes e cuidar do cardápio. Ás vezes, o trabalho era tamanho que os olhos ardiam chorosos e não era de cortar a cebola, mas ela insistia e continuava até o fim depois de quilos e quilos de tempero cortados, depois de filés devidamente prontos e amaciados e depois das mãos calejadas floria, aos poucos, vinha a paz do dever cumprido. Conhecer os sabores, os dissabores, os horrores, a vida de Valeria era isso: Uma luta valiosa de alma forte e guerreira por sobrevivência. Carregando a dor nos braços fortes, nos pés doloridos, no espírito corroído pela amargura do trabalho pesado, mecânico, animalesco...Valeria catava o seu feijão. Na televisão, aquele apresentador gordo entrevistava alguém falando sobre superação, perguntava qual era o sonho da mulher, dissera ela que era ter uma casa própria. Valeria se pôs a pensar nisso enquanto separava os grãos. Sonhos...Primeiramente, se perguntassem o que precisava, ela ia responder de bate-pronto com aquele jeito rispido de gente ignorante "que não precisava de nada não, senhor", mas o seu maior sonho definitivamente era único e imutável desde a infância, ele não queria ter uma vida luxuosa e sim ganhar uma enorme vitrola para que pudesse receber o acalento verdadeiro de uma canção de ninar pra embalar o seu cochilo depois do trabalho pesado do domingo a tarde. O sol caia, a noite começava, o programa acabava e segunda-feira, tudo recomeçava.

A Verdade


A verdade pode até demorar, mas aparece, aparece mesmo com maquiagens, véus ou disfarces. Aparece, independente da cor dos seus olhos ou da dimensão do seu sorriso. Aparece mesmo entre lágrimas e olhares duros e frios. A verdade sempre vêm. Demore o tempo que demorar, custe o que custar, ela virá. Revelará, transfomará e avassalará a vida de todos a sua volta. Em sua presença, nada é igual, tudo é desigual e desforme. A verdade virá para trazer tumultos e rompimentos. Aparecerá estampada nos jornais, nas revistas e nas televisões. Ela chegará, uma hora e entrará sem pedir permissão e assim tudo mudará. Máscaras irão cair quando a verdade estiver próxima de chegar. Rostos gangrenados aparecerão por trás de tantas mentiras. Repondendo a todos os rancores, a bela e verdadeira Verdade mostrará as faces cegas pela mentira e pelo passado.
Sobre o chão seco, cairão governos, ditaduras e egos. Cairão todas mascáras e faces pré-modeladas. Almas queimariam com a água pura e insipida limpando pecados, como num exorcismo. Olhares desdenhosos sangrariam lavando a alma dos justos. Estariamos no meio do caos com o céu caindo sobre nossas cabeças. Seria o fim de todo o mal e de todo o bem. Justiça para todos, começariamos do zero, a gênese surgiria do caos, tudo seria novo e reformulado, fim de aquecimentos, terrorismos e intolerâncias. Justiça para os homens e mulheres de bem, parque de diversões para as crianças, emprego para os trabalhadores, amigos para os solitários, fim de traumas infantis e feridas que não cicatrizam.O raiar de um mundo novo, civilizado e liberto, nunca mais libertino.
A Verdade virá para fazer a roda viva da vida recomeçar. Muitos buscam esconderijo. Ricos e pobres fogem da dona de todos os homens. Não adianta, ela vai voltar. E antes que você tente se esconder, a verdade te dominará enfim, te partirá ao meio antes mesmo que você possa tentar ludibria-la, antes que você possa por clemencia brandar. A verdade é um ser implacável. O meu pressentimento é que hoje a noite que neste mundo ela irá chegar...

domingo, 22 de junho de 2008

Fascinio

Você está usando um vestido, como sempre, linda. Mais um ano se passou desde a primeira vez que a vi. É incrível que não saiba ainda, mas você é o sonho imortal que mora nos meus pensamentos durante a noite, a imagem do sorriso cativante que repousa sobre meus olhos, a face que, há muito tempo, é o abismo profundo onde eu me joguei. É uma pena que o seu coração nem ao menos sinta a minha presença aqui a observar-la de forma tão voraz e por tanto tempo. Todo o dia cresce a vontade de encontrar você de novo e quando eu sento nesse banco de praça sujo, espero que sem querer você me note no meio de todos. Será que você não vê que sou eu o mesmo que volta todos os dias nesse mesmo banco de praça só para ao seu lado sentar? Ah, hoje eu sei que quando sento perto de você meu chão sai do chão e a música toca mais fundo enquanto os pássarinhos voam ainda mais alto para nos deixar a sós. Ah, como eu queria que você soubesse que é o novo tom que dou as minhas canções, a rima dos meus poemas, o sentido de toda a persistência. Sabe, há vezes que me pego pensando que talvez você nem seja uma mulher. Talvez, seja um anjo de passagem em um corpo perfeito, esbelto e lindamente torneado. Sonho por um segundo que você pe mais do que uma simples mortal. Depois de mergulhar em pensamentos, volto a realidade e toda vez que volto, crio coragem, mas percebo que você já foi embora, mais uma vez.


Herói


Eu sou um herói cansado e reprimido que espera o fim do dias sombrios e a gênese das noites alegres. Eu sou um herói que trava a batalha mais perversa de um guerreiro celestial, a batalha pela vida. Sou aquele que reza preces desesperadas pelo bem, um eterno gladiador. Um ser que encara o espelho como alguém que só olha para dentro de si procurando enxergar verdades. Eu existo na forma de um homem épico que vive no coração dos homens que não tem paz, mas que ainda caminham tentando evitar os vales da morte. Talvez eu não seja aquele aquele herói implacável perseguidor do mal, o herói que caminha por entre ás águas e como águia voa, mas sim aquele (in)capaz de trazer a força e acalentar os corações. Não vim dos céus para vencer e nem para fazer com que continuem a crer no amanhã. Simplesmente caminho pelas estradas da vida na busca da chuva de verão, na busca da luz nos olhos e do luar que chega após o entardecer, se quiserem me seguir, seguirão. Estou procurando a minha missão. O que sei é que anseio por algo maior que a vitória e menor que a derrota, eu luto por algo novo, porém ainda desconhecido. Eu sou reflexo de uma esperança que surge no leste ao amanhacer e sou a sombra de uma dúvida que vive no anoitecer que invade o mundo. Eu sobrevivo desta que é a minha força mas que é também a minha maior fraqueza: Amar demais.

Permanece


Quando encaro esse olhar eu vejo o que ainda permaneceu.
Permanece a intimidade ao lidar com as velhas fotos, percebendo a linha tênue do tempo que passou, arruinando todas as minhas essências...esse tempo que deixou o coração descompassado, o choro não derramado e o espirito alucinado. Permanece, ecoando em minha mente, toda palavra morta pelo medo de se fazer pronunciar...Ah, dentro de mim, ficam guardadas as lembranças pequenas, infimas, inexplicavelmente vivas e infinitamente intensas que fazem doer, rolando num moinho dos pensamentos que permanecem em repouso. No fundo, são apenas lembranças debulhando, suposições estourando e saudades emanando. Ficou comigo o medo de encarar olhos nos olhos. Uma verdadeira temerosidade, um silêncio grave que se aparta no ar. Restou essa paciência de admirar o passado, de lamentar o presente e desconhecer o próprio futuro. Resta apenas a vontade de reencontrar o próprio sorriso. Permanece o aprendizado da vida com as poesias que não rimaram e com os versos que não agradaram. Resta esse encarar sempre o infinito, mirando mas sem nada enxergar. Tudo se resume a um olhar admirando o outono que não vai terminar. As nuvens escuras que planam nos céus agora me fazem lembrar que resta este coração de pedra que traduz o medo de que pra sempre tudo, entre eu e esse enorme mundo, permaneça inacabado como um "resto", vivo porém incompleto, agonizando porém sempre permanecendo.

O telefone


Sentado nessa cadeira, eu me encontro perdendo o tempo que não tenho esperando uma ligação. Lembro-me das noites em que esperei o telefone tocar. E sempre que ouvia um ruído qualquer , meu coração ruminava falsas esperanças. Não invejo os telefones que tocam, admiro. E espero anciosamente a minha vez ao lado da escrivaninha onde repousa o telefone branco da minha sala de estar.
- Estará quebrado? - Perguntei-me mais uma vez, naquele dia.
Conferi pelo oitava vez. O telefone estava bom. Tenho sede. Mas só de pensar que alguém pode ligar, meu coração bate um pouco mais forte, descompassado mas bate. Eu sei que apenas uma escapadinha só para fazer xixi, poderia ser o fim. Poderiam estar com pressa e a desistência não tardaria. Me convenço de que é melhor esperar mais um pouco...dez minutos, só mais dez minutinhos. Mais dez minutos, mais dez horas, mais dez dias...dez anos? Minhas roupas ficaram sujas aos poucos, meu rosto? Pálido no espelho, a barba está realmente por fazer, mas ficarei aqui até o chamado chegar! Caindo dentro do meu próprio sonho, enxergo meus pulmões se moverem cada vez mais lentamente, mas não me importo tanto. Me convenci de que não sinto fome e tento como nunca me desvencilhar da sede. O silêncio atormenta, é verdade, mas eu driblo o tempo cantando algumas canções como minha mãe fazia para acalentar o meu sono. Inspirar uma vez mais, entre tudo isso, é a parte fácil. Eu permaeço aqui, porque sei que o telefone irá tocar...em breve, ele irá tocar.

Escrever


Escrevo não como um profundo conhecedor de obras literárias ou como um grande roterista americano. Escrevo como um ninguém, um alguém muito maior e menor do que todos. Escrevo porque escrever me fez ver que é preciso enxergar esperanças nas mãos calejadas e me fez perceber que certas chagas o tempo é incapaz de fechar. São sentimentos machucados como braços gangrenados, pés estraçalhados que não se curam fácil. A escrita é uma revolução de sentimentos, maravilhosos e odiosos. Escrevo porque tenho nas mãos um futuro a zelar, seja ele qual for. Escrevo para enxergar luz em escuridão, riso em solidão e verdade entre os mentirosos. Escrevo, com toda a complexidade que essa arte implica, entre as concepções que tenho do mundo e as opiniões que esse mesmo mundo faz de mim. Escrevo para pensar o que penso sobre mim mesmo.

Esse é o meu primeiro post neste blog.