O mundo não me decepciona, eu decepciono o mundo. Quando escolho ser quem sou quando quero, quando não sou quem sou quando não quero, ou quando escrevo passagens loucas como essas, sou eu que decepciono o mundo. Já não consigo suportar o mundo querendo mudar e me mudar junto consigo. Quero deixar de me ver infinitamente pequeno diante de tantos prédios, diante de tantas casas...Cansei de ser formiga andando pelas ruas, tragando fumaça de ambição e crescimento desenfreado.
Quando acordo de manhã, já vem alguém batendo furiosamente na porta me trazendo o novo ipod com 23 gigas de memória sem nem ao menos eu encomendar nada, dizem que é de graça, um brinde da empresa. Antes que eu pense em tomar café, já está lá a cafeteira que faz um expresso quentinho em menos 56 segundos. Ao entrar no carro para ir ao trabalho, percebo que estou numa Hillux 2.0. Fecho os olhos e por um momento sinto que vivo bem sem o mundo no meu pé, tudo é escurinho e aconchegante sem tantas inovações...Será que dá pra sem ele viver? Ouço um som que me corta o pensamento: O carro foi sozinho até o Mc Donalds. É a atendente perguntando se eu quero a oferta nº 17 com batata tripla e refrigerante duplo. Arranco o carro sem nem responder, porque estou atrasado para o trabalho. Me surpreendo voltando para minha casa! para uma reunião em video conferência, ainda não sabia que a reunião era por messenger...Como agradar um mundo cheio de imposições, inovações? Não tenho argumentos pra ele e ele não tem justificativas pra mim. È dificil aceitar que eu tenho que ser assim para esse mundo de hoje. Eu tenho que mudar para o mundo, mas porque o mundo é incapaz de mudar por mim? Já está de noite, os workholic se despedem e fecham a janela do messenger. Penso em dar uma volta pela rua, mas se eu saio na rua com meu celular tijolinho da Nokia e o assaltante me encontra, ele me dá uns 10 reais e ri da minha cara dizendo que eu sou um idiota. Não vou passar essa vergonha, prefiro ficar assistindo a um filme na LCD. Penso que tudo se resume a uma luta desleal de um misero corpo de 80 quilos contra uma massa que eu nem sei quantos zeros leva no final, eu versus o mundo. Os meus passos são tão precisos, a vida é tão hermética, por que não mudar pelo menos por um dia? Amanhã eu vou sair dessa grande redoma de vidro, com hora pra acordar, dormir e chegar seria uma experiência no mínimo inusitada. Sou novamente interrompido em meus pensamentos pela banheira de última geração que prepara automaticamente um banho e me convida para terminar a noite de um jeito bacana, quem sabe admirar as estrelas do papel de parede do meu banheiro. Deito lá na banheira, esquecendo que sou um robô, enferrujo, entro em curto...Adeus, mundo decepcionante, adeus...
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