sábado, 6 de setembro de 2008



- Não Fred. Não lemos jornais.
- Não gostamos de televisão.
- Não devemos jogar basquete, nem lutar boxe.
- Quando a revolução do mal acabar...E não me pergunte mais isso por hoje. Está acabando com a minha paciência! Agora volte para o seu quarto e vá ler seus livros. - dizia Berta aos olhos azuis lacrimejantes de Fred que indagavam quando poderia asssitir á televisão. Fred, 6 anos de idade, ia para seu quartinho no fundo da casa ler os livros como a sua mãe recomendara. Era assim quase todos os dias, tudo se repetia como num ciclo, numa disciplina quase irritante.
Um dia, num ímpeto quase infantil, o garoto perguntou:
- Por que faz isso comigo?
Ao ver a fisionomia de Berta se transformar tão abruptamente, ele engoliu em seco e deu passos para trás, em direção ao porão. Por que Berta olhava tão furiosamente para ele? O que estava acontecendo?
Um tapa. Tão forte que mandou para longe a ingenuidade do garoto...e os anos passaram.
Fred estava com seus 15 anos e já não saia mais do porão, desde aquele dia fatidico, vivia ali, enfurnado em meio á estantes de livros. A luz entrava por uma pequena fresta. O local era ventilado por tubulações internas. O frio arrebatador, mesmo num espaço de tão poucos metros quadrados, vinha intensamente todas as noites. Berta entrava no porão empoeirado, colocava o almoço, ás vezes voltava para colocar o jantar, mas nunca deixou de entregar novos livros para ele ler no dia seguinte. Para ela não importava se sentia fome, sede ou frio. O mundo resumia-se áqueles livros. Mas esses livros nunca dariam respostas ás tantas perguntas que ferviam na mente de Fred. As imagens estavam milimetricamente arrancadas, palavras escolhidas a dedo estavam borradas de modo infalível, perfeito, para apagar qualquer centelha daquela curiosidade que o fazia acordar pela manhã para descobrir um pouco mais do mundo que não conhecia, mas que existia em algum lugar fora do porão. Tudo era coordenado para não despertar sua curiosidade, nem aguçar a sua imaginação, quiçá aflorar sentimentos. Da boca torta e quadrada de Berta apenas ouvia que o mundo era feio e que os homens lá fora eram maus, a única liberdade que Fred conhecia era a de interpretar um livro e essa era a única linha explicativa pra as tantas vezes em que ele tentava entender o porquê de não ter sucumbido á proibição de conhecer o mundo lá de fora, era o único motivo para estar vivo. Agradecia a vida á sua ânsia de entender o mundo. Enquanto Fred se deparava com mais um livro decepcionante, Berta saía sem dizer uma palavra, sem se quer desejar boa noite, sem dar-lhe um abraço. O quarto cheio de livros e mundos que Fred havia visitado tantas vezes estava ficando cada dia menor e mais entediante. Os pensamentos já não ruminavam mais dentro de sua cabeça, não havia mais espaço para nada naquele lugar. As estantes empoeiradas, cheias de livros complexos e repletas de matemática avançada e ciências já não eram atrativos para os olhos de Fred que perderam o azul brilhante para dar lugar ao amarelado das páginas dos velhos livros.
Enquanto lia o dicionário pela 14ª vez naquele ano, o choro vinha em espasmos, aquele era seu livro preferido, o mais esclarecedor de todos. Sofrimento e solidão esvalam dos olhos, quando lia as palavras preferidas: Perdão, Redenção, Vida. Estava pronto pra exercitar cada uma delas, bastava que Berta lhe desse oportunidades para isso. Os olhos doiam e a mente suplicava descanso, o sono era o único refúgio de Fred. Aquela não era mais uma manhã qualquer. Era especial. ele completava 21 anos de idade, sorria, na feliz constatação de que sobrevivera por mais um ano. Estranhamente, pensamentos vinham atropelados na mente de Fred, parecia até que algo ia acontecer. Berta, entrou no porão com um sorriso medonho nos olhos pra deixar a comida de terças-feiras, mas por algum motivo o clique da porta que indicava que ele havia sido trancado no porão não foi audivel, ela esquecera de trancar. Fred sentiu as pernas tremerem, as mãos suavam, estava inquieto e fervorosamente nervoso com a possibilidade de fugir. Puxou a marcenta com toda a força e velocidade. A luz invadiu o mundo. O sol lá fora iluminou o seu mundo. A claridade o cegou, caiu de costas, desnorteado, bateu a cabeça num livro jogado pelo chão. A ânsia por conhecer o mundo terminara por destruí-lo de uma vez por todas. Morreu por conta de um livro e pela ânsia de querer o mundo inteiro para si.

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