terça-feira, 24 de junho de 2008

Mundo decepcionante


O mundo não me decepciona, eu decepciono o mundo. Quando escolho ser quem sou quando quero, quando não sou quem sou quando não quero, ou quando escrevo passagens loucas como essas, sou eu que decepciono o mundo. Já não consigo suportar o mundo querendo mudar e me mudar junto consigo. Quero deixar de me ver infinitamente pequeno diante de tantos prédios, diante de tantas casas...Cansei de ser formiga andando pelas ruas, tragando fumaça de ambição e crescimento desenfreado.
Quando acordo de manhã, já vem alguém batendo furiosamente na porta me trazendo o novo ipod com 23 gigas de memória sem nem ao menos eu encomendar nada, dizem que é de graça, um brinde da empresa. Antes que eu pense em tomar café, já está lá a cafeteira que faz um expresso quentinho em menos 56 segundos. Ao entrar no carro para ir ao trabalho, percebo que estou numa Hillux 2.0. Fecho os olhos e por um momento sinto que vivo bem sem o mundo no meu pé, tudo é escurinho e aconchegante sem tantas inovações...Será que dá pra sem ele viver? Ouço um som que me corta o pensamento: O carro foi sozinho até o Mc Donalds. É a atendente perguntando se eu quero a oferta nº 17 com batata tripla e refrigerante duplo. Arranco o carro sem nem responder, porque estou atrasado para o trabalho. Me surpreendo voltando para minha casa! para uma reunião em video conferência, ainda não sabia que a reunião era por messenger...Como agradar um mundo cheio de imposições, inovações? Não tenho argumentos pra ele e ele não tem justificativas pra mim. È dificil aceitar que eu tenho que ser assim para esse mundo de hoje. Eu tenho que mudar para o mundo, mas porque o mundo é incapaz de mudar por mim? Já está de noite, os workholic se despedem e fecham a janela do messenger. Penso em dar uma volta pela rua, mas se eu saio na rua com meu celular tijolinho da Nokia e o assaltante me encontra, ele me dá uns 10 reais e ri da minha cara dizendo que eu sou um idiota. Não vou passar essa vergonha, prefiro ficar assistindo a um filme na LCD. Penso que tudo se resume a uma luta desleal de um misero corpo de 80 quilos contra uma massa que eu nem sei quantos zeros leva no final, eu versus o mundo. Os meus passos são tão precisos, a vida é tão hermética, por que não mudar pelo menos por um dia? Amanhã eu vou sair dessa grande redoma de vidro, com hora pra acordar, dormir e chegar seria uma experiência no mínimo inusitada. Sou novamente interrompido em meus pensamentos pela banheira de última geração que prepara automaticamente um banho e me convida para terminar a noite de um jeito bacana, quem sabe admirar as estrelas do papel de parede do meu banheiro. Deito lá na banheira, esquecendo que sou um robô, enferrujo, entro em curto...Adeus, mundo decepcionante, adeus...

Mentiras sinceras


Tudo começa com os pais mentindo sobre o bicho papão debaixo da cama caso a gente não durma, depois vem a "pró" falando que somos a sementinha que o papai colocou na mamãe, os tempos vão passando e se falar o contrário, o cinto do papai, a palmada da mamãe ou o carão da "pró" fazem tudo virar verdade, quer você queira, quer você não queira. A partir daí, a vida torna-se um redemoinho de ilusões. Aprendemos mentiras nas cadeiras das escolas, umas desculpas esfarrapadas pra não ajudar a lavar os pratos e outras para os atrasos do jantar no sábado a noite com aquele colega chato, pra completar, aprendemos uma gama de doenças pra faltar ao trabalho na sexta feira. No amor, nas amizades, entre parentes e desconhecidos, tudo não passa de mentiras consumindo mentiras. Nas novelas, assistimos atentos o amor lutando para prevalecer e no fim, como mágica, a vida segue um curso tal que todos terminam felizes, saudáveis e comovidos em cena, perfeitamente viável, não? No meio desse belo conto de fadas que chamam de vida, me resta acreditar que no mundo há igualdade, que o céu é azul, que não posso colocar o dedo na tomada, que devo ser grato aos meus pais por me colocarem de castigo só porque disse que aquele vaso da tia Gertrudes era pra lá de esquisito...Será mesmo que devo acreditar no mundo, mesmo sabendo que tudo não passa de um redemoinho de pequenas mentirinhas sinceras?

O ex-presidiário

Seu Jonas estava deitado na cama e ficava lá por muito tempo a imaginar qual a reação das pessoas lá fora acaso soubessem que ele ainda tinha sonhos. Quem diria que era possível sonhar com o aconchego de uma casinha e uma plantação de flores depois de viver tantos anos na cadeia? A prisão transformara o rapaz em um senhor com um semblante tristonho e um tanto cansado, mas ele ainda tinha uma centelha de esperança.
Seu Jonas não se considerava um homem velho, tinha 53 anos, era um senhor apenas "vivido". Nem todos o viam dessa forma, muitas pessoas o consideravam apenas um ignorante pelo seu jeito torto de falar, mas por que se importar com o que pensavam dele onde ele estava? Não tinha uma casa para colocar comida na mesa, não tinha filhos para nunca deixar que faltasse nada e nem uma mulher para proteger, logo não devia nada a ninguem. Era presidiário, era um detento, sequer tinha um nome a zelar...
- O senhor pode se dirigir por aquela por ali, por favor. Está livre. - disse o guarda Zé, despertando-o de seus devaneios. Certamente, Zé estava preocupado e pomposo demais só por estar na frente do defensor público que acompanhava o caso do ex-presidiário.
- Obrigado, então...adeus, Zé - falou Jonas admirado por nunca ser tratado assim naqueles anos todos. Pelo contrário, as lembranças que tinha da cadeia eram algo que estaria em seus pesadelos mais assustadores a partir daquele dia. Mas, apesar de tudo, estava livre agora, era isso que importava.
Fora da penitenciária, a luz do sol quase cegou os seus olhos acostumados com o frio e a penumbra de sua cela. Tantos sentimentos rodeavam seus pensamentos... Dali em diante, seria um passarinho solto, mas que não se lembrava como era voar. A vida dos ex-presidiários não era digna para quase ninguém. As perspectivas beiravam as portas do inferno. Desemprego, preconceito, discriminação, a vida em si, normalmente, era a continuação da prisão e da culpa que carregava por seus crimes. Se pudesse voltar no tempo...
Não! Ele enfrentaria tudo com garra e determinação, estava livre e era isso que importava agora. No fundo, o homem preferia acreditar que tinha motivos para encontrar a felicidade e a redenção. Estava solto afinal! Deu os primeiros passos e ouviu alguém dizer:
- Ei, seu velho marginal - falou alguém ás suas costas - Vocês saem daí pra piorar a situação dessa bosta de país! Filho da puta, você vai morrer, desgraçado!
Quando o ex-presidiário olhou pra trás, viu um grupo de rapazes correndo em seu encalço com uns pedaços de madeira nas mãos. Ele saiu correndo, desesperado sem olhar pra trás e sem saber pra onde ir. Lá na frente, tropeçou em alguma coisa, caiu com a cara no chão. Os meninos haviam sumido. Conseguira fugir, lágrimas de terror escorriam dos seus olhos. Enfim, respirando mais fundo, estirado numa calçada, constatou que foram preciso exatos dois minutos para a centelha de esperança do libertado Seu Jonas se apagar de uma vez por todas...

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Encerradas as incrições

Declaro que estão encerradas as inscrições para as vagas. Fica declarado a partir desta que aqueles que se aproximarem serão retaliados e perseguidos vigorosamente, podendo sofrer danos fisicos irreversiveis. Declaro também que não há motivos para quaisquer espécies de reinvindicação. Revigoramos que também que não serão atendidos telefonemas, não aceitaremos sentimentos como pena e piedade pelos fatos e decisões já consumadas. Constatou-se que há a possibilidade de perda de estabilidade e controle emocional do individuo que vos fala, podendo causar constrangimentos dos quais a empresa não se responsabilizará. Atenção: Não aproximem-se! A direção admite que as nossas matrizes não mais serão fragilizadas de modo algum e permanecerá em funcionamento com o seu padrão de qualidade. Encontros serão desmarcados, fotos serão rasgadas, festas serão abadonadas e intervenções quanto ao novo modelo desta empresa não serão acatadas. Minha vida continua...sem vocês.

O quarto


Enquanto as folhas caem das árvores lá fora
Eu limpo meu pequeno quarto
É tanta Poeira..sujeira..tristeza...
Ás vezes no silêncio da noite
Deito nessa cama e rastejo como um lagarto
Encarando no espelho a minha imagem cheia de cicatrizes
Quantas vezes o amor, me tens ferido...?
Eu me encosto num ombro imaginário
e repouso minha cabeça num colo inexistente
Eu fico recluso nessa minha gaiola
Sufocado e cansado da minha própria presença
E ao erguer as janelas
a luz não entra no meu quarto
Eu me afundo na minha cama de dorsel e em minhas intenções debaixo dos lençois
E quando desperto volto ao meu trabalho de cuidar do meu quarto
me perguntando o porque...
de fazer tanto frio e eu ainda ter de dormir aqui

O palhaço


O palhaço infeliz amava profundamente. Mas por que amar? Amar não garante o sustento de ninguém. Se enfermeira tiver nojo seus pacientes, ela ainda tem as mãos para limpar o pus da ferida. Se o político não gostar do povo, ele ainda tinha voz para mentir e ter voto suficiente pra ganhar a eleição. Se o juiz não cumprisse a lei e ordem, ele ainda tinha a propina para comandar o sistema juridiciário. Ah, amar é só um requisito besta que alguém mais besta ainda inventou, nem sabendo a utilidade dessa porcaria. O que ele sabia que era hora de deixar de amar. Amar era segundo plano, o mundo mostrou a ele. Pra quê amar? Suas apresentações carregadas dessa emoção eram uma palhaçada sem graça, ninguém se importava, afinal. Tudo que temperavam com esse tal de amor tornava-se uma história sem enredo, sem sentido, sem porquês. Se o público não valorizava o seu amor, pra que amar o amor? Besteira. Era hora de tirar essa coisa horrorosa e brega de suas apresentações. O trabalho duro era que divinificava, que botava a comida na mesa a noite e o café quente com pão pela manhã. Amar? Amar decididamente é algo secundário.

* Fabiano

Valeria - A catadora de feijão


Preparando refeições e colocando a conversa em dia, Valeria catava o feijão numa bacia apoiada por entre as pernas. O restaurante precisava dela e domingo era o dia de catar o feijão, tratar as carnes e cuidar do cardápio. Ás vezes, o trabalho era tamanho que os olhos ardiam chorosos e não era de cortar a cebola, mas ela insistia e continuava até o fim depois de quilos e quilos de tempero cortados, depois de filés devidamente prontos e amaciados e depois das mãos calejadas floria, aos poucos, vinha a paz do dever cumprido. Conhecer os sabores, os dissabores, os horrores, a vida de Valeria era isso: Uma luta valiosa de alma forte e guerreira por sobrevivência. Carregando a dor nos braços fortes, nos pés doloridos, no espírito corroído pela amargura do trabalho pesado, mecânico, animalesco...Valeria catava o seu feijão. Na televisão, aquele apresentador gordo entrevistava alguém falando sobre superação, perguntava qual era o sonho da mulher, dissera ela que era ter uma casa própria. Valeria se pôs a pensar nisso enquanto separava os grãos. Sonhos...Primeiramente, se perguntassem o que precisava, ela ia responder de bate-pronto com aquele jeito rispido de gente ignorante "que não precisava de nada não, senhor", mas o seu maior sonho definitivamente era único e imutável desde a infância, ele não queria ter uma vida luxuosa e sim ganhar uma enorme vitrola para que pudesse receber o acalento verdadeiro de uma canção de ninar pra embalar o seu cochilo depois do trabalho pesado do domingo a tarde. O sol caia, a noite começava, o programa acabava e segunda-feira, tudo recomeçava.

A Verdade


A verdade pode até demorar, mas aparece, aparece mesmo com maquiagens, véus ou disfarces. Aparece, independente da cor dos seus olhos ou da dimensão do seu sorriso. Aparece mesmo entre lágrimas e olhares duros e frios. A verdade sempre vêm. Demore o tempo que demorar, custe o que custar, ela virá. Revelará, transfomará e avassalará a vida de todos a sua volta. Em sua presença, nada é igual, tudo é desigual e desforme. A verdade virá para trazer tumultos e rompimentos. Aparecerá estampada nos jornais, nas revistas e nas televisões. Ela chegará, uma hora e entrará sem pedir permissão e assim tudo mudará. Máscaras irão cair quando a verdade estiver próxima de chegar. Rostos gangrenados aparecerão por trás de tantas mentiras. Repondendo a todos os rancores, a bela e verdadeira Verdade mostrará as faces cegas pela mentira e pelo passado.
Sobre o chão seco, cairão governos, ditaduras e egos. Cairão todas mascáras e faces pré-modeladas. Almas queimariam com a água pura e insipida limpando pecados, como num exorcismo. Olhares desdenhosos sangrariam lavando a alma dos justos. Estariamos no meio do caos com o céu caindo sobre nossas cabeças. Seria o fim de todo o mal e de todo o bem. Justiça para todos, começariamos do zero, a gênese surgiria do caos, tudo seria novo e reformulado, fim de aquecimentos, terrorismos e intolerâncias. Justiça para os homens e mulheres de bem, parque de diversões para as crianças, emprego para os trabalhadores, amigos para os solitários, fim de traumas infantis e feridas que não cicatrizam.O raiar de um mundo novo, civilizado e liberto, nunca mais libertino.
A Verdade virá para fazer a roda viva da vida recomeçar. Muitos buscam esconderijo. Ricos e pobres fogem da dona de todos os homens. Não adianta, ela vai voltar. E antes que você tente se esconder, a verdade te dominará enfim, te partirá ao meio antes mesmo que você possa tentar ludibria-la, antes que você possa por clemencia brandar. A verdade é um ser implacável. O meu pressentimento é que hoje a noite que neste mundo ela irá chegar...

domingo, 22 de junho de 2008

Fascinio

Você está usando um vestido, como sempre, linda. Mais um ano se passou desde a primeira vez que a vi. É incrível que não saiba ainda, mas você é o sonho imortal que mora nos meus pensamentos durante a noite, a imagem do sorriso cativante que repousa sobre meus olhos, a face que, há muito tempo, é o abismo profundo onde eu me joguei. É uma pena que o seu coração nem ao menos sinta a minha presença aqui a observar-la de forma tão voraz e por tanto tempo. Todo o dia cresce a vontade de encontrar você de novo e quando eu sento nesse banco de praça sujo, espero que sem querer você me note no meio de todos. Será que você não vê que sou eu o mesmo que volta todos os dias nesse mesmo banco de praça só para ao seu lado sentar? Ah, hoje eu sei que quando sento perto de você meu chão sai do chão e a música toca mais fundo enquanto os pássarinhos voam ainda mais alto para nos deixar a sós. Ah, como eu queria que você soubesse que é o novo tom que dou as minhas canções, a rima dos meus poemas, o sentido de toda a persistência. Sabe, há vezes que me pego pensando que talvez você nem seja uma mulher. Talvez, seja um anjo de passagem em um corpo perfeito, esbelto e lindamente torneado. Sonho por um segundo que você pe mais do que uma simples mortal. Depois de mergulhar em pensamentos, volto a realidade e toda vez que volto, crio coragem, mas percebo que você já foi embora, mais uma vez.


Herói


Eu sou um herói cansado e reprimido que espera o fim do dias sombrios e a gênese das noites alegres. Eu sou um herói que trava a batalha mais perversa de um guerreiro celestial, a batalha pela vida. Sou aquele que reza preces desesperadas pelo bem, um eterno gladiador. Um ser que encara o espelho como alguém que só olha para dentro de si procurando enxergar verdades. Eu existo na forma de um homem épico que vive no coração dos homens que não tem paz, mas que ainda caminham tentando evitar os vales da morte. Talvez eu não seja aquele aquele herói implacável perseguidor do mal, o herói que caminha por entre ás águas e como águia voa, mas sim aquele (in)capaz de trazer a força e acalentar os corações. Não vim dos céus para vencer e nem para fazer com que continuem a crer no amanhã. Simplesmente caminho pelas estradas da vida na busca da chuva de verão, na busca da luz nos olhos e do luar que chega após o entardecer, se quiserem me seguir, seguirão. Estou procurando a minha missão. O que sei é que anseio por algo maior que a vitória e menor que a derrota, eu luto por algo novo, porém ainda desconhecido. Eu sou reflexo de uma esperança que surge no leste ao amanhacer e sou a sombra de uma dúvida que vive no anoitecer que invade o mundo. Eu sobrevivo desta que é a minha força mas que é também a minha maior fraqueza: Amar demais.

Permanece


Quando encaro esse olhar eu vejo o que ainda permaneceu.
Permanece a intimidade ao lidar com as velhas fotos, percebendo a linha tênue do tempo que passou, arruinando todas as minhas essências...esse tempo que deixou o coração descompassado, o choro não derramado e o espirito alucinado. Permanece, ecoando em minha mente, toda palavra morta pelo medo de se fazer pronunciar...Ah, dentro de mim, ficam guardadas as lembranças pequenas, infimas, inexplicavelmente vivas e infinitamente intensas que fazem doer, rolando num moinho dos pensamentos que permanecem em repouso. No fundo, são apenas lembranças debulhando, suposições estourando e saudades emanando. Ficou comigo o medo de encarar olhos nos olhos. Uma verdadeira temerosidade, um silêncio grave que se aparta no ar. Restou essa paciência de admirar o passado, de lamentar o presente e desconhecer o próprio futuro. Resta apenas a vontade de reencontrar o próprio sorriso. Permanece o aprendizado da vida com as poesias que não rimaram e com os versos que não agradaram. Resta esse encarar sempre o infinito, mirando mas sem nada enxergar. Tudo se resume a um olhar admirando o outono que não vai terminar. As nuvens escuras que planam nos céus agora me fazem lembrar que resta este coração de pedra que traduz o medo de que pra sempre tudo, entre eu e esse enorme mundo, permaneça inacabado como um "resto", vivo porém incompleto, agonizando porém sempre permanecendo.

O telefone


Sentado nessa cadeira, eu me encontro perdendo o tempo que não tenho esperando uma ligação. Lembro-me das noites em que esperei o telefone tocar. E sempre que ouvia um ruído qualquer , meu coração ruminava falsas esperanças. Não invejo os telefones que tocam, admiro. E espero anciosamente a minha vez ao lado da escrivaninha onde repousa o telefone branco da minha sala de estar.
- Estará quebrado? - Perguntei-me mais uma vez, naquele dia.
Conferi pelo oitava vez. O telefone estava bom. Tenho sede. Mas só de pensar que alguém pode ligar, meu coração bate um pouco mais forte, descompassado mas bate. Eu sei que apenas uma escapadinha só para fazer xixi, poderia ser o fim. Poderiam estar com pressa e a desistência não tardaria. Me convenço de que é melhor esperar mais um pouco...dez minutos, só mais dez minutinhos. Mais dez minutos, mais dez horas, mais dez dias...dez anos? Minhas roupas ficaram sujas aos poucos, meu rosto? Pálido no espelho, a barba está realmente por fazer, mas ficarei aqui até o chamado chegar! Caindo dentro do meu próprio sonho, enxergo meus pulmões se moverem cada vez mais lentamente, mas não me importo tanto. Me convenci de que não sinto fome e tento como nunca me desvencilhar da sede. O silêncio atormenta, é verdade, mas eu driblo o tempo cantando algumas canções como minha mãe fazia para acalentar o meu sono. Inspirar uma vez mais, entre tudo isso, é a parte fácil. Eu permaeço aqui, porque sei que o telefone irá tocar...em breve, ele irá tocar.

Escrever


Escrevo não como um profundo conhecedor de obras literárias ou como um grande roterista americano. Escrevo como um ninguém, um alguém muito maior e menor do que todos. Escrevo porque escrever me fez ver que é preciso enxergar esperanças nas mãos calejadas e me fez perceber que certas chagas o tempo é incapaz de fechar. São sentimentos machucados como braços gangrenados, pés estraçalhados que não se curam fácil. A escrita é uma revolução de sentimentos, maravilhosos e odiosos. Escrevo porque tenho nas mãos um futuro a zelar, seja ele qual for. Escrevo para enxergar luz em escuridão, riso em solidão e verdade entre os mentirosos. Escrevo, com toda a complexidade que essa arte implica, entre as concepções que tenho do mundo e as opiniões que esse mesmo mundo faz de mim. Escrevo para pensar o que penso sobre mim mesmo.

Esse é o meu primeiro post neste blog.