terça-feira, 24 de junho de 2008

Mentiras sinceras


Tudo começa com os pais mentindo sobre o bicho papão debaixo da cama caso a gente não durma, depois vem a "pró" falando que somos a sementinha que o papai colocou na mamãe, os tempos vão passando e se falar o contrário, o cinto do papai, a palmada da mamãe ou o carão da "pró" fazem tudo virar verdade, quer você queira, quer você não queira. A partir daí, a vida torna-se um redemoinho de ilusões. Aprendemos mentiras nas cadeiras das escolas, umas desculpas esfarrapadas pra não ajudar a lavar os pratos e outras para os atrasos do jantar no sábado a noite com aquele colega chato, pra completar, aprendemos uma gama de doenças pra faltar ao trabalho na sexta feira. No amor, nas amizades, entre parentes e desconhecidos, tudo não passa de mentiras consumindo mentiras. Nas novelas, assistimos atentos o amor lutando para prevalecer e no fim, como mágica, a vida segue um curso tal que todos terminam felizes, saudáveis e comovidos em cena, perfeitamente viável, não? No meio desse belo conto de fadas que chamam de vida, me resta acreditar que no mundo há igualdade, que o céu é azul, que não posso colocar o dedo na tomada, que devo ser grato aos meus pais por me colocarem de castigo só porque disse que aquele vaso da tia Gertrudes era pra lá de esquisito...Será mesmo que devo acreditar no mundo, mesmo sabendo que tudo não passa de um redemoinho de pequenas mentirinhas sinceras?

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