domingo, 23 de novembro de 2008


26 de julho de 2006

A beira da praia, repousavam três amigos aquecidos por uma fogueira improvisada. Ted, Alice e Roberto brindavam o futuro sob a luz das estrelas e ao ruído gostoso da brisa do mar soprando fininho nos ouvidos... Risos e gargalhadas permearam aquele que foi o melhor fim de semana de suas vidas. Cheio de muita alegria e brilho do sol refletido no mar e no olhar. Um lugar deserto, uma mesinha montável e a certeza de que quanto menor e mais apertada se mostrava a barraquinha onde estavam hospedados maior e mais perfeito ficava aquele lugar.
Sem televisão, rádio ou qualquer aparelho que os antenasse com o mundo lá fora, eram só Ted, Alice e Roberto.
Agora, a noite caía aos poucos. Trazia consigo o aconchego e a certeza de que no escuro todos eram iguais. Assim, os segredos vinham a tona. Não era preciso entorpecentes ou bebidas para que a verdade se revelasse naquela mesa. Ela simplesmente aparecia e resplandecia entre olhares firmes e atentos a tudo. A verdade se revelava em forma de lágrimas, sorrisos aflitos e sobretudo um reconforto, fazendo renascer a esperança dentro de cada um na certeza de confiar em alguém nesse mundo imenso.
Depois de tantas revelações, Ted resolve quebrar o silêncio:
- E então? O que vai ser daqui pra frente? Amanhã voltaremos pra casa...
- Amanhã, eu vou...ah, sei lá, o que eu vou fazer amanhã...
- Eu não sei também. Acho que vou fazer meu cabelo...
Aos pouquinhos, os velhos hábitos voltavam. Aos poucos a sintonia ia embora... O prazer momentâneo de estar com os amigos estava sendo tragado pela lembrança dos compromissos que cercavam a vida de todos. Aos poucos, as estrelas seriam as únicas testemunhas do que acontecera ali. Estavam sós, eternamente sós e presos á realidade de que tudo é finito. Sobretudo, as velhas amizades.Em breve, seria como nada daquilo tivesse acontecido. Triste, não?
E mesmo que cada um tenha revelado um pouco de si ao outro, as verdades íntimas que jorraram naqueles três dias não serviriam de elo entre eles por conta da corrosão causada pelo desleixo deles com eles mesmos. Ah, como seria se os amigos soubessem que a vida impõe o término de tudo? Viveriamos mais as amizades? A lua já se apresentava imponente, era chegada a noite e ao fim dela os segredos que deveriam ser o ponto de contato eterno entre os jovens não mais seriam que meras confissões de adolescentes num fim de semana qualquer...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


Procuro por corações que tragam o acalento e não tenham medo de se aventurar. Portador de ouvidos sedentes de belas vozes, procuro por algo que soe como música clássica para os meus ouvidos calejados com discursos fajutos e melodias incertas. Envio esse anúncio a procura de uma companhia diferente e inovadora. Não há restrições quando á idade, cor, raça ou credo. Não exigo experiência. Procuro alguém curioso que desvende os segredos que são para mim mistérios guardados a sete chaves. Procuro verdades e questionamentos inteligentes. Necessito de alguém para limpar as feridas e machucados que nem sei quem fez ou onde encontram-se. Não prometo buquês de mil flores ou caixas de chocolate. Salário? Não posso pagar. Serei apenas um olhar de alguém profundamente disposto a mergulhar em outro olhar. A vaga está aberta para alguém que traga luz durante as manhãs e que deixe saudades toda vez que sair. Porém o requisito básico para contratações é que cada vez que me abraçar deve sair levando para longe um pouco das minhas muitas fraquezas.

Quando chegar, não precisa bater, a porta a muito já está entreaberta.

domingo, 9 de novembro de 2008


Helena,

Faz muito tempo que não escrevo uma carta. E esta é a primeira vez que venho para dizer adeus por correspondência. Infelizmente, é momento de abrir os olhos para velhas promessas e ver que o futuro prometido já não mais se encaixa mais em nossa história. Para começar quero pedir perdão por conta das falsas esperanças. Me perdoe se quebrei a promessa de nunca mudar o meu jeito de ser por força das circunstâncias. Saiba que eu tentei, meu amor, tentei de verdade fazer com que nosso amor estivesse para sempre intacto. Acreditei nisso quando cartas suas passam por debaixo da porta, interrompendo a noite fria, era como se uma flor murcha desabrochasse esperanças. E ao lado do rádinho de pilha que eu você me deu no natal de 99, eu mergulhei profundamento nas suas palavras carinhosas ao som das velhas músicas que ouviamos juntos, você se lembrará disso.
Eu sei que cada dia a partir daqui pode ser um novo inferno em nossas vidas, por isso clamo a Deus para nos ajudar, você sabe do que o toque dele é capaz. Mesmo distante, anelo que Ele agarre as suas mãos nas horas de dificuldades.
Não sei pra onde vou, não sei se voltarei, por isso quero que imagine um jardim fabuloso, cheio das suas tão queridas jasmins. Estaremos lá, eu e você, eternizados pelo amor e pela paixão fervorosa que vivemos durante esse tempo. O destino já me provou que o grande problema desse mundo é que estamos pensando que giramos sobre ele, mas é o mundo que gira sob nossos pés, não há como controlar suas determinações. Porém, ainda é possivel sonhar mais uma vez. Sonhe comigo, sonharei contigo. Desculpe se não fui claro o suficiente nesta carta, é que as palavras as vezes somem quando queremos dizer o quanto amamos alguém. De tudo, o meu maior clamor é para que não esqueça que este é o adeus de um alguém que mantém escálida a esperança de que um dia nos reencontremos pela curta estrada da vida. Digo agora meu último adeus, antes de ir para um lugar onde não haja mais novos recomeços...

Com eternas saudades,

Sérgio

- Por favor, o senhor pode dirigir-se até o próximo balcão. Estaremos redirecionandos os seus dados para o atendente responsável pelo seu requerimento, senhor. Sua senha é 299831
- Mas esse já o terceiro guichê que...
Seu Zé foi interrompido por uma estilhaçar de janelas; era o prenúncio de assalto.
- Bora, bora! Todo mundo no chão!!!
Seu Zé, ainda de pé dizia:
- Ô meu filho, minha artrose tá me matando hoje...
Ignorando o senhor biruta que falava, o assaltante continuou anunciando:
- È véspera de natal. Contribuam com os celulares e com a grana pro papai Noel aqui. - falava o assaltante entre frouxos de riso.
- E o senhor aproveita que já tá em pé e vai passando a graninha aí. - completou o seu comparsa, referindo-se á seu Zé.
- Como é que é meu filho? - perguntou seu Zé.
- Passa a grana, coroa. Tá surdo?
Seu Zé estava entre risos e gargalhadas...
- Qual é tiozão? Tá curtindo com minha cara? Passa a grana, porra!
- Ô meu filho, não me leve a mal não viu? Vou indo...
E entre passos firmes em meio de corpos trêmulos no chão, Zé deixou o banco com o seu salário de míseros 200 reais. Os assaltantes incrédulos nada falaram com seu Zé, que atrasado para o trabalho saiu a passos largos. Intacto, ileso ele fugia daquela situação. Enquanto pensava nos assaltantes que vieram com aquela conversa ridícula de "Isso é um asssalto" . Faça-me o favor...que piada! Acho que hoje 200 reais não dá nem pra comprar um perdão de alguém? Dá? - resmungava o velho senhor a caminho da fábrica onde trabalhava.
Uma vez em segurança, ele ligou para a polícia
- Alô...
- Pois não
- Está tendo um assalto no banco da Avenida Central. Eu consegui sair de lá agora.
- O senhor está bem? Não está machucado? Há reféns?
- Eu estou bem. Há cerca de vinte pessoas lá.
- Pois bem. E quanto roubaram do senhor?
- Nada. Eu saí de lá sem que me roubassem.
Risos...
- Não levaram nada, cara?!
- Hum...não!

- O senhor levava algum dinheiro na carteira?

- Uns 200 reais.
- Vá procurar o que fazer,seu velho safado. Hora de parar de passar trote pra polícia e crescer não? - finalizou o policial do outro lado da linha enquanto ria daquele trote.
- Mais uma vitima da piada que é o mundo contemporâneo. Esses caras não crescem nunca que o tempo passa?
Seu Zé, sem entender muita coisa, colocou o telefone no gancho e foi para a fábrica pra mais um dia de trabalho.....



sábado, 1 de novembro de 2008

Redenção




- Alô?
- 20 Horas. Av. Redenção, Rua da Esperança. 1726.
- Mas...
- Esteja lá ou será muito pior...Sua frágil Marcela vai morrer, você sabe disso não é?

" Tudo seria diferente se eu não tivesse fracassado "
Esse foi o pensamento que acometeu o engenheiro elétrico Roberto ao levantar de sua cama e encarar a sua sombra no espelho. Aquele dia mudaria a vida de pessoas importantes. E a sua responsabilidade nisso pesava fortemente sobre os seus ombros. Sem agüentar encarar aquela emoção sombria por muito tempo, ele saiu do quarto com os olhos cheios de lágrimas e deixando a barba por fazer...
Andar pela casa não reduzia nem um pouco a ansiedade invisivel que rondava o seu corpo. Inerte em pensamentos, com um porta retrato nas mãos, a alucinação causada pela missão que aquele dia reservava só fazia aumentar mais e mais. A ansiedade estava sendo multiplicada a cada segundo que passava.

Meses atrás...

- Sei que você não vai mudar, Marco. Já entendi que o que me resta é rezar por nós. Porque se algo acontecer a você ou Sofia eu não vou aguentar...Eu juro que não vou aguentar. - falava Marcela com a voz embargada encarando a face arrependida do marido.
- Eu vou resolver isso. Confia...
- Confiar? Como eu vou confiar neles? Como eu vou confiar nesses...bandidos, hein Marco?
- Calma...Olha nos meus olhos e diz que confia em mim.
Aqueles olhos castanhos encontraram os seus pela milésima vez desde o dia em que Marco havia conhecido Marcela, há 6 anos, na rua, enquanto ela lhe vendia o corpo para sobreviver.
- Eu confio em você
- Eu te amo...
- Também te amo. Sem você...eu não sei o que seria de mim...
Marco deu um breve beijo em Marcela e três minutos depois já tinha relevado aquela discussão...Marco acreditava que aquele seria apenas um episódio isolado. Não sabia ele que essa seria mais uma das muitas cenas idênticas que seriam lembradas e ruminadas nos próximos meses levando-o aos precipícios da loucura e insanidade.

Marco sentia cada vez mais perto o final e a decisão que tomara na semana anterior fazia suas entranhas se movimentarem em ritmo vertiginoso. O medo apertava-lhe o coração.
Uma carta deixada sobre a mesa explicaria tudo que aconteceria no fim daquele dia. Debruçou-se e traduziu em palavras a tragédia prenunciada. Deixou todos os segredos ali, derramados sobre o papel.
Enquanto olhava uma fotografia ele chorava e chorava prometendo a si mesmo que cumpriria aquela missão, independente de tudo, custasse o que custasse.

A estrada crescia a cada passo seu. Enquanto o desejo de acabar com tudo aquilo se tornava ávido e a hora se aproximava, Roberto mais trêmulo ficava.
Já eram 19:48 quando ele chegou ao local combinado.

- Pois bem. Vejo que ainda lhe resta alguma coragem, seu idiota.
- Onde elas estão?
- Sabe por que está aqui, não sabe? - respondeu Mikail ignorando completamente a pergunta de Marco.
- Sei.
- Pois então...vai baixando o tom, rapaz...você é o último que pode abrir a boca aqui.
- Você nem pense em chegar perto delas.
- Pois bem...Vamos entrar, conversar...A noite só está começando.
O bandido trancou a porta logo depois que ele entrou. Definitivamente, ele mataria os três ali mesmo, sem um pingo de piedade. Para Marco não restava dúvida que o bandido apostava em três presuntos deitados no chão e um chop com uma mulherzinha mais tarde.
Tudo corria como o esperado...

- Aqui estão as suas preciosidades. A bebezinho irritante e a mulher gostosa.
Ele partiu para abraçar sua mulher, ignorando o algoz...
- Me perdoa. Me perdoa!
- Não se aproxima de mim! Sai daqui! - falou uma Marcela indiferente á situação.
- Ih! A patroa não quer conversa hein?
- Cala a boca, imbecil
- Opa patrãozinho...vai relaxando...eu to achando que os três vão estirar as perninhas hoje.
- Cala a boca aí, Zé.
- Não provoca Marcela. Ele pode machucar você, deixa que eu cuido disso...
Risos...risos do bandido e de Marcela. O que estava acontecendo ali afinal?
- (tosse) Então...Como vai ser Marcela? Quem vai matar ele? - falava Zé
- Eu mato.
- O quê?? Marcela? O que está acontecendo?
- Nada, querido. Só preciso que você fique paradinho para eu atirar na cara pálida, ok?
- Marcela? Você...você me traiu?
- Nossa...maridinho esperto esse o meu não? Você achou mesmo que eu ia ficar com um idiota como você? Ainda mais envolvido nesses crimes todos aí? Porra nenhuma cara! Em dois meses iam te pegar e eu que ia me ferrar. Eu e minha filha vamos sair daqui e vamos usufruir do seu dinheiro até o último centavo...Serei a vitima da história. A sequestrada, a mãe viúva, coitadinha de mim!
- Sua piranha! Vagabunda!
Um estampido. O tiro foi certeiro. Missão cumprida. A polícia estava a caminho. Tudo teria de acontecer em poucos minutos. Os olhos marejados derramavam lágrimas falsas enquanto limpava as digitais da arma.
- Você é um idiota mesmo, Marco. Cair no conto da puta arrependida é mesmo coisa de panaca. Adeus!

Marco morria ás 20:04, na Rua da Esperança.