- Alô?
- 20 Horas. Av. Redenção, Rua da Esperança. 1726.
- Mas...
- Esteja lá ou será muito pior...Sua frágil Marcela vai morrer, você sabe disso não é?
" Tudo seria diferente se eu não tivesse fracassado "
Esse foi o pensamento que acometeu o engenheiro elétrico Roberto ao levantar de sua cama e encarar a sua sombra no espelho. Aquele dia mudaria a vida de pessoas importantes. E a sua responsabilidade nisso pesava fortemente sobre os seus ombros. Sem agüentar encarar aquela emoção sombria por muito tempo, ele saiu do quarto com os olhos cheios de lágrimas e deixando a barba por fazer...
Andar pela casa não reduzia nem um pouco a ansiedade invisivel que rondava o seu corpo. Inerte em pensamentos, com um porta retrato nas mãos, a alucinação causada pela missão que aquele dia reservava só fazia aumentar mais e mais. A ansiedade estava sendo multiplicada a cada segundo que passava.
Meses atrás...
- Sei que você não vai mudar, Marco. Já entendi que o que me resta é rezar por nós. Porque se algo acontecer a você ou Sofia eu não vou aguentar...Eu juro que não vou aguentar. - falava Marcela com a voz embargada encarando a face arrependida do marido.
- Eu vou resolver isso. Confia...
- Confiar? Como eu vou confiar neles? Como eu vou confiar nesses...bandidos, hein Marco?
- Calma...Olha nos meus olhos e diz que confia em mim.
Aqueles olhos castanhos encontraram os seus pela milésima vez desde o dia em que Marco havia conhecido Marcela, há 6 anos, na rua, enquanto ela lhe vendia o corpo para sobreviver.
- Eu confio em você
- Eu te amo...
- Também te amo. Sem você...eu não sei o que seria de mim...
Marco deu um breve beijo em Marcela e três minutos depois já tinha relevado aquela discussão...Marco acreditava que aquele seria apenas um episódio isolado. Não sabia ele que essa seria mais uma das muitas cenas idênticas que seriam lembradas e ruminadas nos próximos meses levando-o aos precipícios da loucura e insanidade.
Marco sentia cada vez mais perto o final e a decisão que tomara na semana anterior fazia suas entranhas se movimentarem em ritmo vertiginoso. O medo apertava-lhe o coração.
Uma carta deixada sobre a mesa explicaria tudo que aconteceria no fim daquele dia. Debruçou-se e traduziu em palavras a tragédia prenunciada. Deixou todos os segredos ali, derramados sobre o papel.
Enquanto olhava uma fotografia ele chorava e chorava prometendo a si mesmo que cumpriria aquela missão, independente de tudo, custasse o que custasse.
A estrada crescia a cada passo seu. Enquanto o desejo de acabar com tudo aquilo se tornava ávido e a hora se aproximava, Roberto mais trêmulo ficava.
Já eram 19:48 quando ele chegou ao local combinado.
- Pois bem. Vejo que ainda lhe resta alguma coragem, seu idiota.
- Onde elas estão?
- Sabe por que está aqui, não sabe? - respondeu Mikail ignorando completamente a pergunta de Marco.
- Sei.
- Pois então...vai baixando o tom, rapaz...você é o último que pode abrir a boca aqui.
- Você nem pense em chegar perto delas.
- Pois bem...Vamos entrar, conversar...A noite só está começando.
O bandido trancou a porta logo depois que ele entrou. Definitivamente, ele mataria os três ali mesmo, sem um pingo de piedade. Para Marco não restava dúvida que o bandido apostava em três presuntos deitados no chão e um chop com uma mulherzinha mais tarde.
Tudo corria como o esperado...
- Aqui estão as suas preciosidades. A bebezinho irritante e a mulher gostosa.
Ele partiu para abraçar sua mulher, ignorando o algoz...
- Me perdoa. Me perdoa!
- Não se aproxima de mim! Sai daqui! - falou uma Marcela indiferente á situação.
- Ih! A patroa não quer conversa hein?
- Cala a boca, imbecil
- Opa patrãozinho...vai relaxando...eu to achando que os três vão estirar as perninhas hoje.
- Cala a boca aí, Zé.
- Não provoca Marcela. Ele pode machucar você, deixa que eu cuido disso...
Risos...risos do bandido e de Marcela. O que estava acontecendo ali afinal?
- (tosse) Então...Como vai ser Marcela? Quem vai matar ele? - falava Zé
- Eu mato.
- O quê?? Marcela? O que está acontecendo?
- Nada, querido. Só preciso que você fique paradinho para eu atirar na cara pálida, ok?
- Marcela? Você...você me traiu?
- Nossa...maridinho esperto esse o meu não? Você achou mesmo que eu ia ficar com um idiota como você? Ainda mais envolvido nesses crimes todos aí? Porra nenhuma cara! Em dois meses iam te pegar e eu que ia me ferrar. Eu e minha filha vamos sair daqui e vamos usufruir do seu dinheiro até o último centavo...Serei a vitima da história. A sequestrada, a mãe viúva, coitadinha de mim!
- Sua piranha! Vagabunda!
Um estampido. O tiro foi certeiro. Missão cumprida. A polícia estava a caminho. Tudo teria de acontecer em poucos minutos. Os olhos marejados derramavam lágrimas falsas enquanto limpava as digitais da arma.
- Você é um idiota mesmo, Marco. Cair no conto da puta arrependida é mesmo coisa de panaca. Adeus!
Marco morria ás 20:04, na Rua da Esperança.
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