
-Olha pra mim quando eu tiver falando com você, neguinho - falou o policial com arma em punho.
- Eu tô olhando! - respondeu Marquinho ligeiramente alterado.
- Qual foi Rubem? Porra mano, na moral, deixa agente em paz. - interviu Zé.
- É Rubem, agente não fez nada, pô. - completou Edu.
- Quem diz se vocês fizeram ou num fizeram alguma coisa aqui sou eu. É melhor você ficar pianinho, senão o bicho vai pegar pro lado de vocês.
- Deixa o Marquinho ir...na boa, cara. Você é nossa corrente.
- E você cala a boca também. Quer ir em cana? Se quiser eu posso te levar agorinha...Ou melhor, posso mandar os 6 pra lá. - e ainda mais alterado, continuou: - E quem sabe não seja isso que você queira não é Robertinho? Ficar lá com o filha da puta do seu irmão...
- Como é que é? Olha como você fala do meu irmão, seu desgraçado.
- Como é que é o quê? Qual foi neguinho? Quer morrer é?!
Antes que ele reagiasse a lembrança do seu irmão o fez ponderar a situação...e assim conteve seus instintos.
- Foi mal. - respondeu Robertinho engolindo em seco - Podemos ir agora, por favor?
- Melhor assim...Bem melhor assim. - finalizou dando-lhe um leve tapa no rosto.
O Ódio sempre fervia em suas veias a cada vez que ouvia o falar no policial. Sempre onde os 6 estavam eram incomodados pelo policial. Na festa, na rua, em suas próprias casas, o policial estava sempre de olho neles. Zé era o que mais reclamava. Mas o que podia fazer? Tudo o que estava acontecendo com o irmão do Marquinho era complicado e comprar uma briga que poderia pegar pro lado do amigo era uma verdadeira fria. O melhor a fazer era ficar de boa. "Tudo para manter a unidade". Esse era o lema dos 6. Desde a infância, quando ficaram amigos, estavam juntos o tempo inteiro e nada mudaria isso.
Aquele era dia de visita, seu irmão sairia da cadeia dentro de 2 ou 3 meses, mas nas últimas vezes que o vira, a cor saudável que nutria seu corpo no passado estava ficando cada vez mais amena, escondida e sombreadas por trás da carcaça do irmão. Eram bons irmãos, amigos, antes de tudo. A fé em Nossa Senhora fazia com que ele acreditasse que tudo ia melhorar. Retirado de seus pensamento sentiu uma protuberancia incomoda ao encontrar o corpo do irmão no abraço.
- O que é isso cara? Isso...Isso é uma arma, Brother?
Silêncio.
- Responde, porra, você tá com uma arma aí, caralho? - impacientand0-se
Olhos nos olhos. Não era preciso dizer nada. Ele estava aprontando, conhecia seu irmão melhor do que todos.
- Ou você me dá isso agora e vai pensar na merda que você ia fazer ou então eu conto tudo pra mãe e vai ser pior depois...Você quer matar ela de desgosto? É isso?
- Mas...
- Não! Chega de você colocar a gente em confusão. Já chega de você ditar o modo como a nossa vida anda...
- Porra, também não é assim...
- É assim sim! Me dá a arma agora...
Guardando dentro da cueca o artefato de metal pesado, Marquinho voltava para se encontrar com os amigos e pensar no que fazer com aquela porcaria, quando o policial apareceu em seu caminho.
- Ora ora, veja se não é o aprendiz de traficante. O viadinho tá voltando da visita é? Você sempre chora que visita o irmãozinho?
- Saí da minha frente! Eu preciso ir - respondeu apertando o passo.
- Igualzinho ao irmão. Um bandidinho...Um viadinho pretencioso. - Marquinho ouviu o policial dizer num sussurro.
Naquele momento, Marquinho sentiu o seu corpo gelar, seus olhos se fecharam na tentativa de controlar e afastar a idéia absurda que se materalizava em sua mente. Suas mãos tremiam, era enorme a fúria que sentia no mais profundo de si. Seu rosto endurecia, enquanto sua alma se contorcia a cada palavra que saía da boca daquele policial maldito. E sem pensar em mais nada, puxou e disparou o gatilho da arma que estava guardada. Ao som da bala, aceleram-se passos ao seu redor, o grupo dos 6 chegara e ao encarar aquela cena estava automaticamente determinado que nunca mais a unidade seria mantida.
Estava tudo acabado.
"Pernas e cabeça na calçada" - baseado na Capoeira de Oswald de Andrade.
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