Seu Jonas não se considerava um homem velho, tinha 53 anos, era um senhor apenas "vivido". Nem todos o viam dessa forma, muitas pessoas o consideravam apenas um ignorante pelo seu jeito torto de falar, mas por que se importar com o que pensavam dele onde ele estava? Não tinha uma casa para colocar comida na mesa, não tinha filhos para nunca deixar que faltasse nada e nem uma mulher para proteger, logo não devia nada a ninguem. Era presidiário, era um detento, sequer tinha um nome a zelar...
- O senhor pode se dirigir por aquela por ali, por favor. Está livre. - disse o guarda Zé, despertando-o de seus devaneios. Certamente, Zé estava preocupado e pomposo demais só por estar na frente do defensor público que acompanhava o caso do ex-presidiário.
- Obrigado, então...adeus, Zé - falou Jonas admirado por nunca ser tratado assim naqueles anos todos. Pelo contrário, as lembranças que tinha da cadeia eram algo que estaria em seus pesadelos mais assustadores a partir daquele dia. Mas, apesar de tudo, estava livre agora, era isso que importava.
Fora da penitenciária, a luz do sol quase cegou os seus olhos acostumados com o frio e a penumbra de sua cela. Tantos sentimentos rodeavam seus pensamentos... Dali em diante, seria um passarinho solto, mas que não se lembrava como era voar. A vida dos ex-presidiários não era digna para quase ninguém. As perspectivas beiravam as portas do inferno. Desemprego, preconceito, discriminação, a vida em si, normalmente, era a continuação da prisão e da culpa que carregava por seus crimes. Se pudesse voltar no tempo...
Não! Ele enfrentaria tudo com garra e determinação, estava livre e era isso que importava agora. No fundo, o homem preferia acreditar que tinha motivos para encontrar a felicidade e a redenção. Estava solto afinal! Deu os primeiros passos e ouviu alguém dizer:
- Ei, seu velho marginal - falou alguém ás suas costas - Vocês saem daí pra piorar a situação dessa bosta de país! Filho da puta, você vai morrer, desgraçado!
Quando o ex-presidiário olhou pra trás, viu um grupo de rapazes correndo em seu encalço com uns pedaços de madeira nas mãos. Ele saiu correndo, desesperado sem olhar pra trás e sem saber pra onde ir. Lá na frente, tropeçou em alguma coisa, caiu com a cara no chão. Os meninos haviam sumido. Conseguira fugir, lágrimas de terror escorriam dos seus olhos. Enfim, respirando mais fundo, estirado numa calçada, constatou que foram preciso exatos dois minutos para a centelha de esperança do libertado Seu Jonas se apagar de uma vez por todas...
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