sábado, 13 de dezembro de 2008

Adeus velho mundo


- Bem, preciso ir. O tempo é curto.
- Pois então isso é um adeus? - perguntou seu José olhando para os olhos da filha
- Acho que sim, talvez um adeus, papai... -
- Esse velho tem direito a um último abraço pelo menos?
- Mas é claro que sim... - falava uma Júlia de voz tremendamente embargada.
E repetinamente aquele momento lhes pareceu tão forte que cada músculo deles clamava por ficar ali abraçados para sempre. O silêncio incorruptivel fazia como se todo o amor do mundo tivesse sido guardado para ser entregue naquele abraço.
Quando finalmente abriram os olhos, ainda estavam entre os braços um do outro. Júlia pôde ver por entre as janelas a bela tarde outonal no quintal de sua casa. Tantas vezes havia desenhado por entre aquelas árvores. E agora? Por quais outros jardins levaria seus cadernos para expressar sua arte? Um outono estava se findando e entre o embaralhar de folhas secas, o seu coração embaralhava-se as dúvidas de outrora. Tinha vontade de poder transpor em arte todos esses sentimentos. A ordem dentro de si havia ido embora junto com as folhas secas que atravessaram as ruas outonais. O friozinho no nariz queria fazê-la ficar recontida em sua própria casca, mas algo a mandava sair e algo ao mesmo tempo a mandava ficar.
Quando se deu conta que estava olhando para o nada, entregou ao pai o seu mais recente desenho: um senhorzinho sentado numa cadeira de balanço. Era uma caricatura de José. Estava sorrindo, os seus olhos profundos estavam bem representados. As lágrimas denunciavam seus medos. Embaixo, havia algo escrito:
" Basta o senhor pedir que ficarei "
O velho pai chorou avidamente. Debulhou-se como criança perante a decisão a ser tomada.Era a magia do outono que se concretizava abrindo as suas comportas. Outono, um tempo para repensar as cores da sua vida, as cores da arte que sua filha tanto amava. No fundo, o velho pai sabia o quão dificil seria vê-la ir. Por um lado, era visivel que sua filha estava apaixonada pela arte dos desenhos. Mas por outro lado queria protegê-la até o último minuto das incertezas da vida real. O medo quase se apoderou completamente de José, mas por fim ele disse:
- Nada a deterá, filha. Nem mesmo eu... - reuniu forças para não chorar.
- Oh, pai...
- Você precisa ir. Você precisa ir, agora!
- Mas pai...
- Me prometa que não terá medo...
- Eu..eu prometo. Não hesitarei!
- Siga o coração, minha pequenina. Escute essa sua emoção, seja lá pra onde você for.
Aquelas foram as últimas palavras que ele dirigiu para Júlia. Ela desceu as escadas, ainda em meio a soluços audiveis e seguiu...
Pouco a pouco, por entre as cortinas, era possivel ver uma nova Júlia indo embora, olhando com olhos quentes, firmes, ela acenava enquanto seu pai se lembrava da criança que ela um dia fôra. Olhos grandiosos, cabelos leves como o vento, hoje, aquela mesma menininha destemida da infância que amava rabiscos e desenhos e que era incapaz de se entregar a primeira queda de bicicleta ou no primeiro traço mal delineado aparecera novamente, mas agora o estava deixando pra trás para sempre. Aquela era uma nova Júlia, a artista incapaz de acatar qualquer resquisito de razão. Caminhando em direção ao novo mundo, abandonando qualquer medo e abraçando definitivamente toda a aventura que estava por vir de sua arte... Antes de tudo, aventureiros, como a pequena Júlia, são sonhadores que vivem de sonhar com a razão do seu viver...Incapazes de distinguir distância alguma de alguma distância, encontram acalento apenas na certeza de não ter um pingo de receio de se lançar perante as possibilidades da vida. A pequena Júlia se apaixonara pelo mundo artistico e a compreensão disso dispensa palavras. Talvez as rimas fossem pequenas para dizer ou quem sabe os contornos fossem insuficientes para representar...Para apaixonados o que importa é que a urgência bate a porta e o mistério da paixão pousa no ar. Afinal, paixão é paixão, é um trovão, é fogo, é doçura ou, quem sabe, apenas uma sensação.

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