
Após o término da missa, o Padre passou mais uma vez deixando uma moeda para o menino cego. Lá estava o garotinho, orfão de mãe e pai sempre pedindo esmolas sentado em frente á igreja de São Bernardo. Cego de nascença, seu maior desejo, assim como o de todo garoto de sua idade, era andar de bicicleta. Dessa fase, nenhum de nós está a salvo, o gosto pelas bicicletas é quase uma constante universal (durante a infância) entre as crianças. No fim de tarde primaveril, o menino pedia esmolas, não para comprar comida, mas para completar o dinheiro para a tal bicicleta. Durante todas as missas estava sempre mentalizando o seu desejo e pedindo ajuda divina, mesmo estando deitado em meio ás caixas de papelão e sujeito ao frio das ruas, ele mantinha-se acreditando. Apenas o padre dava alguma moeda, as freiras tratavam-no como um cachorro maltrapilho em frente á igreja. Até que logo mais a noite, após anos de espera, o padre consegue uma bicicleta velha para o menino. Tamanha era a sua alegria que montou no banco e saiu pedalando sem nem ouvir qualquer recomendação do padre. Por segundos preciosos o mundo não mais tão imenso e amedrontador. Pelo contrário, tudo fora reduzido a apenas o cenário onde estavam o menino e o seu sonho realizado protagonizando uma cena de teatro. Não haveria como naquele momento ouvir o motor de um carro ranger, vindo em alta velocidade no meio da chuva em sua direção. O carro tentou desviar, mas não foi possivel. O impacto foi forte, arremessando-o para muito longe. Porém, ao cair no chão, não foi a enxada da morte que o atingiu. O sangue podia estar escorrendo das veias, mas não faltava força fluindo dentro de si. Os músculos podiam estar tensionados, mas não era dor que ele sentia. Os olhos podiam estar desnorteados e fora de órbita, mas a luz dentro deles permanecia forte como um farol. No soprar do vento, no molhar da chuva, ao som da madrugada o espirito do menino cego e o seu sonho, uniram-se num só corpo, numa única sintonia, estavam despreedendo-se aos poucos do contato corpo e alma. Seu sorriso sincero mesmo no corpo desnudo de vida brilhou. Fato é que seu espirito transformou-se numa centelha de luz que ilumina o céu que permeia as noites. O garotinho da bicicleta transformou-se na tal como conhecemos hoje, estrela cadente. Hoje, ele é a esperança do anoitecer para aqueles que vivem na escuridão, mas que nunca desistem de sonhar.
Renovação. Esse era o objetivo que se firmava na vida de Clay. Visceral era o sentimento que arrebatou o corpo do rapaz e a voz da alma veio faze-lo descobrir a vida onde não já havia vida. Naquele momento era a libertação do seu passado marcado por chagas doloridas, naquele momento ele não lembraria de nada que lhe fizesse doer o coração. Ficaria ali com ele, apenas a lição de vida para que ele seguisse adiante em paz, o que perdeu até hoje, ficaria perdido no passado.
A tempestade estava prestes a começar, tão instanteamente como nos filmes de Hollywood os primeiros filetes de água caiam aos seus pés e aos poucos Clay sentia como se seu corpo estivesse alimentado por uma força e determinação de um ser imortal. Um novo homem nascia como uma flor em pleno o berço do sertão, uma fênix renascida das cinzas. Enquanto a água o tocava, o seu renascimento se completava e o calor voltava ao seu coração. Seu corpo estava leve e de forma inconsciente ele abriu os braços e sorriu serenamente para o céu tempestuoso.
E bem baixinho, apenas para que Deus ouvisse, ele disse:
- Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.
Um trovão veio e enfim, assim como o céu acima de sua cabeça, o homem chorou.