sábado, 27 de setembro de 2008

Repetições


-Olha pra mim quando eu tiver falando com você, neguinho - falou o policial com arma em punho.
- Eu tô olhando! - respondeu Marquinho ligeiramente alterado.
- Qual foi Rubem? Porra mano, na moral, deixa agente em paz. - interviu Zé.
- É Rubem, agente não fez nada, pô. - completou Edu.
- Quem diz se vocês fizeram ou num fizeram alguma coisa aqui sou eu. É melhor você ficar pianinho, senão o bicho vai pegar pro lado de vocês.
- Deixa o Marquinho ir...na boa, cara. Você é nossa corrente.
- E você cala a boca também. Quer ir em cana? Se quiser eu posso te levar agorinha...Ou melhor, posso mandar os 6 pra lá. - e ainda mais alterado, continuou: - E quem sabe não seja isso que você queira não é Robertinho? Ficar lá com o filha da puta do seu irmão...
- Como é que é? Olha como você fala do meu irmão, seu desgraçado.
- Como é que é o quê? Qual foi neguinho? Quer morrer é?!
Antes que ele reagiasse a lembrança do seu irmão o fez ponderar a situação...e assim conteve seus instintos.
- Foi mal. - respondeu Robertinho engolindo em seco - Podemos ir agora, por favor?
- Melhor assim...Bem melhor assim. - finalizou dando-lhe um leve tapa no rosto.

O Ódio sempre fervia em suas veias a cada vez que ouvia o falar no policial. Sempre onde os 6 estavam eram incomodados pelo policial. Na festa, na rua, em suas próprias casas, o policial estava sempre de olho neles. Zé era o que mais reclamava. Mas o que podia fazer? Tudo o que estava acontecendo com o irmão do Marquinho era complicado e comprar uma briga que poderia pegar pro lado do amigo era uma verdadeira fria. O melhor a fazer era ficar de boa. "Tudo para manter a unidade". Esse era o lema dos 6. Desde a infância, quando ficaram amigos, estavam juntos o tempo inteiro e nada mudaria isso.

Aquele era dia de visita, seu irmão sairia da cadeia dentro de 2 ou 3 meses, mas nas últimas vezes que o vira, a cor saudável que nutria seu corpo no passado estava ficando cada vez mais amena, escondida e sombreadas por trás da carcaça do irmão. Eram bons irmãos, amigos, antes de tudo. A fé em Nossa Senhora fazia com que ele acreditasse que tudo ia melhorar. Retirado de seus pensamento sentiu uma protuberancia incomoda ao encontrar o corpo do irmão no abraço.
- O que é isso cara? Isso...Isso é uma arma, Brother?
Silêncio.
- Responde, porra, você tá com uma arma aí, caralho? - impacientand0-se
Olhos nos olhos. Não era preciso dizer nada. Ele estava aprontando, conhecia seu irmão melhor do que todos.
- Ou você me dá isso agora e vai pensar na merda que você ia fazer ou então eu conto tudo pra mãe e vai ser pior depois...Você quer matar ela de desgosto? É isso?
- Mas...
- Não! Chega de você colocar a gente em confusão. Já chega de você ditar o modo como a nossa vida anda...
- Porra, também não é assim...
- É assim sim! Me dá a arma agora...
Guardando dentro da cueca o artefato de metal pesado, Marquinho voltava para se encontrar com os amigos e pensar no que fazer com aquela porcaria, quando o policial apareceu em seu caminho.
- Ora ora, veja se não é o aprendiz de traficante. O viadinho tá voltando da visita é? Você sempre chora que visita o irmãozinho?
- Saí da minha frente! Eu preciso ir - respondeu apertando o passo.
- Igualzinho ao irmão. Um bandidinho...Um viadinho pretencioso. - Marquinho ouviu o policial dizer num sussurro.
Naquele momento, Marquinho sentiu o seu corpo gelar, seus olhos se fecharam na tentativa de controlar e afastar a idéia absurda que se materalizava em sua mente. Suas mãos tremiam, era enorme a fúria que sentia no mais profundo de si. Seu rosto endurecia, enquanto sua alma se contorcia a cada palavra que saía da boca daquele policial maldito. E sem pensar em mais nada, puxou e disparou o gatilho da arma que estava guardada. Ao som da bala, aceleram-se passos ao seu redor, o grupo dos 6 chegara e ao encarar aquela cena estava automaticamente determinado que nunca mais a unidade seria mantida.
Estava tudo acabado.

"Pernas e cabeça na calçada" - baseado na Capoeira de Oswald de Andrade.

sábado, 6 de setembro de 2008

Conduzindo

Conduzir é um ato de promover escolhas. Eu conduzo minha vida como se integrasse umaa banda, acompanhando o ritmo que os destinos determinam, administrando a canção e ouvindo a inspiração de Deus para compor a letra, dtando a melodia está o bom senso. Tento manter a afinação e com o máximo de sensibilidade e técnica, vou cantando mesmo sabendo que os últimos acordes podem estar no próximo minuto. Conduzo minha vida como se ela fosse um intertexto eterno. Posso estar de bermuda ou calça social, mas estou sempre acrescentando novas linhas a essa música, essa grande poesia. Essa é minha vida, perfeitamente transformavel em filme, em desenho, em argumento. Estou buscando entender o mundo á minha volta, desde as palavras até o modo particularmente encantador como cada pessoa conduz a sua vida, vou compreendendo o funcionamento de tudo que se apresenta a minha frente. Estou descobrindo aos poucos como adquirir novos conhecimentos, construindo um pouco mais de mim, mesmo entre empecilhos e estações secas ou muito chuvosas. Desde o riso até o choro, do choro até o pranto, do pranto até a luz, conduzo minha vida mesmo não sabendo onde a estrada vai levar. Assim, em última análise, sou também um cara comum, com uma boa família, alguns bons amigos. No final da história, acho que conduzo minha vida como estivesse num carro, afinal a vida é um estágio passageiro, a morte é uma parada certa e as curvas são as escolhas que as possibilidades nos conferem. Enquanto uns estão conduzindo o automóvel no sinal vermelho, outros estão apenas acelerando no sinal verde. Eu? Fico com o amarelo.


- Não Fred. Não lemos jornais.
- Não gostamos de televisão.
- Não devemos jogar basquete, nem lutar boxe.
- Quando a revolução do mal acabar...E não me pergunte mais isso por hoje. Está acabando com a minha paciência! Agora volte para o seu quarto e vá ler seus livros. - dizia Berta aos olhos azuis lacrimejantes de Fred que indagavam quando poderia asssitir á televisão. Fred, 6 anos de idade, ia para seu quartinho no fundo da casa ler os livros como a sua mãe recomendara. Era assim quase todos os dias, tudo se repetia como num ciclo, numa disciplina quase irritante.
Um dia, num ímpeto quase infantil, o garoto perguntou:
- Por que faz isso comigo?
Ao ver a fisionomia de Berta se transformar tão abruptamente, ele engoliu em seco e deu passos para trás, em direção ao porão. Por que Berta olhava tão furiosamente para ele? O que estava acontecendo?
Um tapa. Tão forte que mandou para longe a ingenuidade do garoto...e os anos passaram.
Fred estava com seus 15 anos e já não saia mais do porão, desde aquele dia fatidico, vivia ali, enfurnado em meio á estantes de livros. A luz entrava por uma pequena fresta. O local era ventilado por tubulações internas. O frio arrebatador, mesmo num espaço de tão poucos metros quadrados, vinha intensamente todas as noites. Berta entrava no porão empoeirado, colocava o almoço, ás vezes voltava para colocar o jantar, mas nunca deixou de entregar novos livros para ele ler no dia seguinte. Para ela não importava se sentia fome, sede ou frio. O mundo resumia-se áqueles livros. Mas esses livros nunca dariam respostas ás tantas perguntas que ferviam na mente de Fred. As imagens estavam milimetricamente arrancadas, palavras escolhidas a dedo estavam borradas de modo infalível, perfeito, para apagar qualquer centelha daquela curiosidade que o fazia acordar pela manhã para descobrir um pouco mais do mundo que não conhecia, mas que existia em algum lugar fora do porão. Tudo era coordenado para não despertar sua curiosidade, nem aguçar a sua imaginação, quiçá aflorar sentimentos. Da boca torta e quadrada de Berta apenas ouvia que o mundo era feio e que os homens lá fora eram maus, a única liberdade que Fred conhecia era a de interpretar um livro e essa era a única linha explicativa pra as tantas vezes em que ele tentava entender o porquê de não ter sucumbido á proibição de conhecer o mundo lá de fora, era o único motivo para estar vivo. Agradecia a vida á sua ânsia de entender o mundo. Enquanto Fred se deparava com mais um livro decepcionante, Berta saía sem dizer uma palavra, sem se quer desejar boa noite, sem dar-lhe um abraço. O quarto cheio de livros e mundos que Fred havia visitado tantas vezes estava ficando cada dia menor e mais entediante. Os pensamentos já não ruminavam mais dentro de sua cabeça, não havia mais espaço para nada naquele lugar. As estantes empoeiradas, cheias de livros complexos e repletas de matemática avançada e ciências já não eram atrativos para os olhos de Fred que perderam o azul brilhante para dar lugar ao amarelado das páginas dos velhos livros.
Enquanto lia o dicionário pela 14ª vez naquele ano, o choro vinha em espasmos, aquele era seu livro preferido, o mais esclarecedor de todos. Sofrimento e solidão esvalam dos olhos, quando lia as palavras preferidas: Perdão, Redenção, Vida. Estava pronto pra exercitar cada uma delas, bastava que Berta lhe desse oportunidades para isso. Os olhos doiam e a mente suplicava descanso, o sono era o único refúgio de Fred. Aquela não era mais uma manhã qualquer. Era especial. ele completava 21 anos de idade, sorria, na feliz constatação de que sobrevivera por mais um ano. Estranhamente, pensamentos vinham atropelados na mente de Fred, parecia até que algo ia acontecer. Berta, entrou no porão com um sorriso medonho nos olhos pra deixar a comida de terças-feiras, mas por algum motivo o clique da porta que indicava que ele havia sido trancado no porão não foi audivel, ela esquecera de trancar. Fred sentiu as pernas tremerem, as mãos suavam, estava inquieto e fervorosamente nervoso com a possibilidade de fugir. Puxou a marcenta com toda a força e velocidade. A luz invadiu o mundo. O sol lá fora iluminou o seu mundo. A claridade o cegou, caiu de costas, desnorteado, bateu a cabeça num livro jogado pelo chão. A ânsia por conhecer o mundo terminara por destruí-lo de uma vez por todas. Morreu por conta de um livro e pela ânsia de querer o mundo inteiro para si.