segunda-feira, 23 de junho de 2008

Valeria - A catadora de feijão


Preparando refeições e colocando a conversa em dia, Valeria catava o feijão numa bacia apoiada por entre as pernas. O restaurante precisava dela e domingo era o dia de catar o feijão, tratar as carnes e cuidar do cardápio. Ás vezes, o trabalho era tamanho que os olhos ardiam chorosos e não era de cortar a cebola, mas ela insistia e continuava até o fim depois de quilos e quilos de tempero cortados, depois de filés devidamente prontos e amaciados e depois das mãos calejadas floria, aos poucos, vinha a paz do dever cumprido. Conhecer os sabores, os dissabores, os horrores, a vida de Valeria era isso: Uma luta valiosa de alma forte e guerreira por sobrevivência. Carregando a dor nos braços fortes, nos pés doloridos, no espírito corroído pela amargura do trabalho pesado, mecânico, animalesco...Valeria catava o seu feijão. Na televisão, aquele apresentador gordo entrevistava alguém falando sobre superação, perguntava qual era o sonho da mulher, dissera ela que era ter uma casa própria. Valeria se pôs a pensar nisso enquanto separava os grãos. Sonhos...Primeiramente, se perguntassem o que precisava, ela ia responder de bate-pronto com aquele jeito rispido de gente ignorante "que não precisava de nada não, senhor", mas o seu maior sonho definitivamente era único e imutável desde a infância, ele não queria ter uma vida luxuosa e sim ganhar uma enorme vitrola para que pudesse receber o acalento verdadeiro de uma canção de ninar pra embalar o seu cochilo depois do trabalho pesado do domingo a tarde. O sol caia, a noite começava, o programa acabava e segunda-feira, tudo recomeçava.

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