O palhaço infeliz amava profundamente. Mas por que amar? Amar não garante o sustento de ninguém. Se enfermeira tiver nojo seus pacientes, ela ainda tem as mãos para limpar o pus da ferida. Se o político não gostar do povo, ele ainda tinha voz para mentir e ter voto suficiente pra ganhar a eleição. Se o juiz não cumprisse a lei e ordem, ele ainda tinha a propina para comandar o sistema juridiciário. Ah, amar é só um requisito besta que alguém mais besta ainda inventou, nem sabendo a utilidade dessa porcaria. O que ele sabia que era hora de deixar de amar. Amar era segundo plano, o mundo mostrou a ele. Pra quê amar? Suas apresentações carregadas dessa emoção eram uma palhaçada sem graça, ninguém se importava, afinal. Tudo que temperavam com esse tal de amor tornava-se uma história sem enredo, sem sentido, sem porquês. Se o público não valorizava o seu amor, pra que amar o amor? Besteira. Era hora de tirar essa coisa horrorosa e brega de suas apresentações. O trabalho duro era que divinificava, que botava a comida na mesa a noite e o café quente com pão pela manhã. Amar? Amar decididamente é algo secundário.
* Fabiano
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