sexta-feira, 6 de março de 2009




Meus olhos vagaram soltos pelos cômodos, procurava por recordações que não encontraria tão fácil. Muitas delas estavam guardadas tão secretamente que era difícil até saber por onde começar a procurar...
Vasculhei velhas cartas, caixas lacradas pelo tempo, antigas fotografias e até mesmo um aroma que me fosse familiar.
Estava difícil descobrir o motivo daquela ausência de recordações tocantes até que meus olhos encontraram uma caixinha de bailarina. O mundo parou naquele exato instante, lembranças jorraram como fonte de água cristalina e então instaneamente chorei... Trêmula, dirigi-me até a pequenina caixinha e com os dedos ainda vacilantes dei corda naquela caixinha tão delicada! E antes mesmo da música tocar, minha mente lembrou-se da primeira nota! Percebi então que sentia falta de algo que já nem lembrava mais... De um rosto que já não tocava mais a minha mente. Eu havia esquecido o meu primeiro presente de um menino... Como eu esqueci o rosto de Jorginho? Ah... Amamos-nos tão intensamente... Secretamente trocamos tantas cartinhas quando jovens... Vivíamos um amor intenso, ingênuo, é verdade, mas nunca, nunca banal. Realmente, aquela caixinha era especial...
Foi o presente mais doce que Jorginho poderia ter dado a alguém!Éramos especiais, vivíamos tudo como se o amanhã não fosse chegar! Cada toque, cada palavra era tão cuidadosamente ensaiada que ás vezes nos fazia rir. Ficávamos cabulados pelo simples toque de nossas mãos...
Arrepiei só de lembrar... Realmente, algo peculiar para se encontrar assim... Acho que um esboço do rosto do Jorginho estava começando a se formar na minha mente... E quando eu estava entretida em meus pensamentos, alguém entrou no quarto, sorrateiramente... De sobressalto, levantei. Era meu esposo! Ah! E o rosto de Jorginho voou solto pelo ar! O susto quase me fez esquecer! Mas com o esforço das minhas lembranças eu vi... Vi o rosto de Jorginho! E sorri! Não me importei com as indagações daquele homem diante de mim que agora me parecia tão estranho, ele gesticulava, cutucava, mas eu... Eu estava num outro plano, era eu e o Jorginho, num outro mundo, sem crises conjugais, ciúmes, tapas no rosto ou qualquer trauma. No meu devaneio, nos beijamos docemente, sem frieza, apenas com amor. Porém, a realidade bateu a minha porta e voltei a ver o semblante enfurecido do meu marido... Olhando pra mim como se eu fosse uma criminosa!
Foi o que me bastou pra eu dizer chega!Durante tantos anos eu havia me esquecido de que já havia sido amada, valorizada. De que já me trataram como mulher!Sim. Eu era uma mulher!Uma mulher forte e deixei que a vida mudasse meu jeito decidido de ser! Foi aí que percebi que ausência era essa que sentia e não sabia explicar!Eu sentia falta de cumplicidade, afinação com alguém. Sentia verdadeiramente falta de dialogar abertamente sem amarras, sem temores. Levantei da cama e desferi um tapa, não na face, mas na cara daquele safado que me fizera sofrer por tanto tempo. Bati a porta com toda a força do mundo e desci as escadas, decidida a reencontrar-me! Procurar a mim mesma no canto do passado onde fui esquecida! Onde eu mesma me deixei. E quando encontrasse, eu traria cor novamente aos meus dias que, até então, haviam sido negros, sem vida. Mas a caixinha abriria as cortinas do futuro e assim novos horizontes se abririam pra mim. Acreditava e acredito nisso enquanto conto essa história. Hoje, faz dois anos que eu renasci. Renasci para o mundo e principalmente renasci para o amor!Sim. Hoje posso dizer que sei o que significa o amor! Posso soletrar cada letra sem sentir dor ou dúvida!E Jorginho? Ah Jorginho...foi tão importante te reencontrar...No fundo, eu sabia que o tempo não poderia apagar um sentimento tão forte.

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