Estava tão escuro e frio naquela noite que se os ossos tremiam e me deixavam sem reação. Pela hora, já não passavam carros por dentro do túnel, eu estava sozinho, eu era apenas um mendigo sozinho no esmo. Durante o dia, eram os carros que passavam com velocidades incrivelmente altas e me deixavam confuso com tantos zum zum zuns. A noite, era a volta das sombras que me fazia sentir falta dos carros, estranho esse ciclo né?
Escuridão e Frio. Nesse lugar o corpo dói e tudo provoca calafrios. Caminho pelo asfalto em busca de um lugar iluminado que por mais que procure sou incapaz de chegar. O chão é acinzentado. Não ouço nem mesmo a voz dos guardas vigiando esse lugar. A insônia afoga os meus sonhos. O meu coração está descompassado, batendo ao ritmo próprio desse lugar. Tum.....tum..........tum. Ando um pouco mais, tentando mais uma vez chegar até a luz. Como uma estrela no céu eu avisto a centelha distante. Piso numa flor, me abaixo para pegá-la, mas os postes se apagaram...Escuridão e Frio, de novo. No fim das contas, parecia não haver cura para a doença do silêncio solitário que eu contrai vivendo pelos túneis da cidade. Agarrei-me as canções de clamor a Deus que minha avó me ensinou quando criança para quem sabe assim sentir a minha fé de volta. A noite pairava cada vez mais ameaçadora...A canção que eu cantava já parecia ecoar dentro de mim... minha voz já não saía mais, enquanto o tempo passava, eu perguntava aos céus se haveria redenção para os imundos miseráveis que dormiam em baixo de pontes, dentro de túneis, perdidos em si mesmos. Silêncio e gotas de chuva como resposta. Foi quando um um farol brilhante iluminou a noite. Assustado, me afastei, corri para fora do túnel, mas o meu algoz foi infitamente mais rápido e me alcançou, caí no chão e senti meu corpo impedido de fugir, e então, na chuva, ele me deu água para beber, a saliva quase gotejando da minha boca me impediu de recusar...Mais perto de mim, quase como uma flecha acertando um alvo, bem perto de mim, ele chegou e disse enfim:
- Bem-vindo a casa que você me concedeu, agora que você saiu do túnel, é hora de eeu me apresentar: Fernando, eu sou o filho de Deus.
sexta-feira, 6 de março de 2009
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